Animais em incêndios: é possível ajudar

26 Fev 2021

Durante 2019 e 2020, ocorreu uma grande quantidade de incêndios florestais no Brasil, sobretudo no Pantanal e na Amazônia. Esses incêndios vitimaram uma quantidade gigantesca de animais selvagens. Na Amazônia, segundo estatísticas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), aconteceram mais de 32 mil focos de incêndio em 2020, o que representa um aumento de 60% em comparação à 2019.

Já em relação ao Pantanal, as estimativas do Inpe são que os incêndios ultrapassaram 14.400 focos em 2020, e que já em agosto o número de queimadas foi maior do que o volume dos últimos seis anos somados, representando um aumento de 220% em relação ao ano anterior. Segundo dados do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais 2,34 milhões de hectares no Pantanal foram consumidos pelas chamas (15% do bioma).

Em relação às causas dos incêndios, misturam-se fatores antropogênicos e naturais. Dentre os fatores antropogênicos, está a conexão dos incêndios, tanto na Amazônia quanto no Pantanal, com o agronegócio, pois as queimadas acontecem  para se retirar a vegetação e utilizar o local para se criar os animais que serão explorados para consumo. Quanto aos fatores provavelmente naturais, a Amazônia está passando por uma estação de seca severa, o que os cientistas atribuem em parte ao aquecimento no Oceano Atlântico Norte tropical, que retira a umidade da América do Sul e também impulsiona a seca no Pantanal. Muitas áreas ficaram tomadas de uma vegetação seca, contribuindo para a proliferação do fogo.

É difícil estimar a quantidade de animais mortos ou prejudicados de alguma outra maneira pelo fogo. Uma das dificuldade é que as equipes precisam localizar os animais mortos em até 72 horas depois do incêndio para que as ossadas não desapareçam. Além disso, como as estatísticas são levantadas por organizações ambientalistas, os dados dizem respeito à espécies, e não, sobre a quantidade de indivíduos mortos e sobre o seu sofrimento. Por exemplo, é estimado que, no Mato Grosso do Sul, as queimadas afetaram cerca 580 espécies de aves, 280 de peixes, 174 de mamíferos, 131 de répteis e 57 de anfíbios e que aproximadamente 20% das espécies de mamíferos foram afetadas pelos incêndios no Pantanal. Esses dados poderiam ser utilizados indiretamente para se estimar a quantidade de animais mortos. Contudo, como a preocupação dos grupos de pesquisa que levantam esses dados é geralmente ambientalista (e não, a preocupação com os seres sencientes enquanto indivíduos), não há uma motivação direta para que esses dados sejam obtidos.

Pequenos mamíferos e serpentes foram os animais mais encontrados. Animais que se locomovem mais lentamente, como cobras e anfíbios foram os animais mais afetados pelo fogo. Contudo, os incêndios restringiram o espaço de todos os animais, fazendo com que haja maior competição por espaço e comida por parte dos membros das distintas espécies.  Posteriormente aos incêndios, os animais enfrentam a falta de comida e água, o que é chamado de “fome cinzenta”.

Dada a prevalência em nossa sociedade de uma visão que não é centrada na consideração pelos animais enquanto seres sencientes, os recursos para se realizar as intervenções que ajudam os animais acabam dependendo de interesses humanos ou metas ambientalistas estarem em jogo. Por exemplo, as chances de um animal afetado por um incêndio receber socorro e tratamento dependem de ele pertencer ou não à uma espécie ameaçada de extinção. Segundo um pesquisador do Embrapa, a razão central para se ajudar esses animais é que “essas espécies têm um papel fundamental no ecossistema para dispersão de sementes, polinização, ciclo de nutrientes e outros processos ecológicos que mantêm o ecossistema funcionando”.

Ou seja, a preocupação na maioria das vezes, não é com o bem dos animais em si. Geralmente, as justificativas ambientalistas e antropocêntricas caminham juntas. Por exemplo, o Itaú Unibanco faz parte do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que exige políticas que protegem a Amazônia. A presidente do banco declarou que “esta não é uma questão ideológica […] quando você não tem uma política clara sobre isso, você compromete essas empresas. Você perde valor e o país perde”. Curiosamente, quando as justificativas oferecidas são antropocêntricas, isso tende a ser representado como algo neutro, como se o antropocentrismo não fosse uma ideologia.

Contudo, apesar dessas restrições quanto aos recursos, várias ações foram feitas por organizações e voluntários para ajudar os animais vítimas dos incêndios, por preocupação com os próprios animais. Em setembro de 2020, a Anda (Agência de Notícias de Direitos Animais), que é uma organização centrada na consideração pelos animais enquanto indivíduos, moveu uma ação cautelar na 8ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária de Mato Grosso sugerindo que aviões da Força Aérea Brasileira sejam usados para combater os incêndios no Pantanal. A ONG É O Bicho MT  arrecadou 10 toneladas de alimentos doados pela população, que foram distribuídos aos animais. Membros do Posto de Atendimento Emergencial a Animais Silvestres (PAEAS) do Pantanal e do Grupo de Resgate de Animais em Desastres (GRAD) participaram de um sobrevoo, com o auxílio da Marinha do Brasil, para a realização de lançamentos aéreos de frutas. O GRAD também oferece de alimentos ao longo das margens dos rios. A força-tarefa entregou 186 mil litros de água todos os dias. Duas onças-pintadas encontradas com as patas queimadas um iniciaram tratamento com células-tronco. Uma anta também foi resgatada após ser encontrada sem forças com o corpo queimado. Um tamanduá foi medicado e hidratado em uma unidade móvel e filhotes de porco do mato e de aves também foram resgatados.

Esses exemplos mostram pelo menos três coisas importantes. A primeira, é que, ao contrário do que muitas pessoas acreditam, é possível ajudar os animais selvagens nessas situações. A proposta de se pesquisar mais sobre como ajudar os animais selvagens frequentemente encontra a objeção de que fazê-lo seria algo impraticável. Esses exemplos, junto com vários outros, mostram o contrário.

Em segundo lugar, é importante observar que não há uma maior quantidade de recursos disponíveis para se ajudar os animais selvagens e também há uma falta de vontade na sociedade em geral de ajudá-los devido à predominância das visões antropocêntrica e ambientalista, e não de uma visão centrada na preocupação com o bem dos animais enquanto indivíduos capazes de sofrer e de desfrutar.

Assim sendo, se houvesse uma maior consideração pelos animais em nossa sociedade, certamente que haveria mais conhecimento sobre como ajudá-los e mais recursos, tanto para se pesquisar mais sobre as formas seguras de ajudá-los, quanto para se colocar em prática essa ajuda. Isso mostra a importância e a urgência de se divulgar os argumentos contra o especismo e a favor da igual consideração de todos os seres sencientes, independentemente de espécie.

Por fim, o terceiro ponto é que os animais selvagens não são prejudicados apenas por incêndios. Eles são prejudicados por inúmeros outros fatores, vários deles decorrentes de ações humanas, diretas ou indiretas, mas também decorrentes dos próprios processos naturais. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, independentemente de ação humana, os animais selvagens já são prejudicados por desnutrição e sede, doenças, lesões físicas, condições meteorológicas hostis, desastres naturais, conflitos interespecíficos, conflitos intraespecíficos, conflito sexual e estresse psicológico. Além disso, a maneira como ocorre a dinâmica de populações resulta no nascimento de uma quantidade gigantesca de animais para uma vida onde predomina largamente o sofrimento e que terão mortes extremamente prematuras. Por exemplo, a maioria de espécies de seres sencientes se reproduz tendo quantidade enormes de filhotes por gestação ou posta de ovos (desde dezenas até muitos milhões, dependendo da espécie), e, em populações estáveis, a taxa de sobreviventes é em média de apenas dois por ninhada.

Assim, a situação típica dos animais selvagens em geral não é nada favorável. E, se realmente nos preocupamos com o bem deles, não restringiremos nossa preocupação à somente situações onde eles são prejudicados por práticas humanas: desejaremos que sejam pesquisadas formas de tornar sua situação menos pior, independentemente de se o que os ameaça são práticas humanas ou processos naturais.