Diferentes abordagens na defesa dos animais

Diferentes abordagens na defesa dos animais

17 Jun 2026

A abordagem total e a abordagem suficiente

Neste texto exploraremos dois tipos de abordagem para tentar fazer com que mais pessoas se importem com questões que afetam os animais. Chamaremos elas de abordagem total e abordagem suficiente1. Veremos exemplos de vantagens e desvantagens de cada uma, em vários contextos.

Diferentes leques de compatibilidade

As diferentes abordagens que podemos empregar para tentar fazer com que as pessoas aceitem determinada conclusão possuem leques de compatibilidade2 mais abertos ou fechados. Quanto mais ideias adicionais uma abordagem requer que sejam aceitas para se aceitar a conclusão que ela defende, mais fechado é esse leque, pois então quem não concorda com essas ideias adicionais não aceitará a conclusão. Quanto menos ideias adicionais uma abordagem requer que sejam aceitas para se aceitar a conclusão que ela defende, mais aberto é esse leque, pois então pessoas que discordam sobre várias outras coisas podem, ainda assim, aceitar a conclusão proposta.

Por exemplo, imaginemos que queremos defender a ideia A, e que pensamos inicialmente que, para aceitá-la, é necessário aceitar a ideia B. Passamos então a tentar fazer com que as pessoas aceitem B. Com isso, podemos passar sem querer a mensagem de que, quem não concorda com B não tem razões para aceitar A. Contudo, imaginemos que depois descobrimos que, para aceitar A, não é necessário aceitar B. Teria sido então melhor ter enfatizado que, tanto quem aceita quanto quem rejeita B tem ainda razões para aceitar A.

Assim, há duas vantagens de abordagens com leque amplo: (1) muito mais pessoas podem aceitar o que estamos propondo; e (2) la enfatiza que pessoas que discordam sobre determinadas ideias ainda podem concordar sobre outras.

A abordagem total e a abordagem suficiente

Em certas situações, alguém que discorda de certas ideias adicionais ainda aceitará o que estamos propondo, mas em menor medida do que quem aceita essas ideias adicionais. Nesse sentido, é importante distinguir dois tipos de abordagens:

Abordagem total: consiste em defender a conclusão que realmente achamos correta, e explicitar as ideias adicionais necessárias para aceitá-la em sua totalidade

Abordagem suficiente: consiste em destacar que quem rejeita a conclusão em sua totalidade, por discordar de certas ideias adicionais, ainda pode aceitá-la parcialmente

A abordagem total possui um leque de compatibilidade mais fechado, e a abordagem suficiente, um leque mais amplo. Sendo assim, temos então um dilema:

A abordagem total provavelmente fará com que menos pessoas aceitem o que propomos, mas aceitarão a proposta em maior medida.

A abordagem suficiente provavelmente fará com que mais pessoas aceitem o que propormos, mas aceitarão a proposta em menor medida.

Nos próximos itens veremos como essas duas estratégias seriam aplicadas a diversas questões.

Quem devemos considerar?

Abordagem total: defender que devemos considerar todos os seres sencientes e apenas os seres sencientes

Risco: quem defende considerar outros tipos de entidades (espécies e ecossistemas, por exemplo)3 pensar que não precisa considerar seres sencientes

Abordagem suficiente: defender que ser senciente é suficiente para receber consideração, mesmo se não for necessário, e defender que há razões para priorizar os seres sencientes,4 mesmo se considerarmos outros tipos de entidade

Visões em ética e política

Abordagem total: defender uma abordagem específica em ética e política, e mostrar que dela se segue a rejeição do especismo

Risco: quem não concorda com a abordagem específica em questão pensar que não precisam rejeitar o especismo

Abordagem suficiente: defender a rejeição do especismo com argumentos que não requerem a aceitação prévia de uma visão específica em ética ou política

Veganismo

Abordagem total: defender que considerar os animais implica adotar o veganismo

Risco: dado o grau de especismo vigente, algumas pessoas pensarem que isso é exigir demais, e então não mudarem nada o seu comportamento em relação aos animais

Abordagem suficiente: enfatizar que, mesmo quem ainda não adotou o veganismo já pode fazer outras coisas, como ajudar os animais e diminuir o seu consumo5

Especismo

Abordagem total: defender que o especismo é injusto e que, portanto, os animais não humanos devem receber igual consideração6

Risco: quem não concorda com isso pensar que não devem considerar os animais em grau algum

Abordagem suficiente: enfatizar que, mesmo se os humanos merecessem uma consideração maior, disso não se seguiria que a consideração que os animais devem receber é pouca, muito menos que estaria automaticamente justificada a exploração animal e a negligência de ajuda quando são vítimas de processos naturais

Priorização de causas

Abordagem total: defender que a causa animal deveria ser uma prioridade7 (dado o número de vítimas, o sofrimento por vítima, o grau de negligência etc.)

Risco: quem prioriza outras causas achar que não precisa dar grande importância à causa animal

Abordagem suficiente: enfatizar que, mesmo que alguém priorize outra causa, ainda teria razões para dar grande importância à causa animal

Magnitude do dano da morte

Abordagem total: defender que o fato de alguém não pertencer à espécie humana não implica que seja necessariamente menos prejudicado com a morte8

Risco: quem acredita que os humanos são sempre mais prejudicados com a morte pensar que os animais não humanos são pouco prejudicados com a morte

Abordagem suficiente: enfatizar que, mesmo que os humanos fossem necessariamente mais prejudicados com a morte, isso não implicaria que os animais não humanos são pouco prejudicados com a morte9

Dano da morte

Abordagem total: defender que os animais não humanos são prejudicados com a morte10

Risco: quem discorda pensar que está justificado explorá-los ou negar-lhes ajuda quando são vítimas de processos naturais

Abordagem suficiente: enfatizar que, na vasta maioria dos casos, para sermos contra a exploração animal e favoráveis a ajudar os animais na natureza, é suficiente reconhecer que eles são prejudicados com o sofrimento

Futuro em longo prazo

Abordagem total: defender priorizar o futuro em longo prazo, pois conterá uma quantidade enormemente maior de seres sencientes do que o curto prazo

Risco: quem prioriza o curto prazo achar que não precisa se preocupar com o longo prazo

Abordagem suficiente: enfatizar que mesmo quem prioriza o curto prazo deve reconhecer que as questões relacionadas ao sofrimento em longo prazo são muito importantes11

Situação dos animais na natureza

Abordagem total: defender que, dada a quantidade de vítimas e o grau de negligência do problema, a situação dos animais na natureza deveria ser uma prioridade

Risco: quem prioriza os animais explorados pensar que não precisa se preocupar em tentar mudar a situação dos animais selvagens

Abordagem suficiente: apontar que, mesmo quem prioriza os animais explorados tem razões para dedicar uma parte do seu ativismo para a situação dos animais na natureza

Origem do dano e responsabilidade moral

Abordagem total: defender que a força das razões para evitar certo dano deveria depender da magnitude do dano e da possibilidade de evitá-lo, e não de se o dano tem origem em práticas humanas ou em processos naturais

Risco: quem acredita que devemos priorizar danos decorrentes de práticas humanas pensar que está justificado a negligenciar os danos naturais12

Abordagem suficiente: enfatizar que, mesmo que devêssemos priorizar evitar danos antropogênicos, isso não implicaria que não teríamos responsabilidade alguma diante de danos naturais, e nem que essa responsabilidade deve ser pequena

Relação entre ajudar animais selvagens e veganismo

Abordagem total: defender que devemos ser veganos e também buscar diminuir o sofrimento e as mortes dos animais que estão na natureza

Risco: algumas pessoas pensarem que só devem defender ajudar os animais na natureza se algum dia se tornarem veganas

Abordagem suficiente: enfatizar que, se pudermos fazer algo para ajudar, devemos fazê-lo, mesmo que não estejamos a fazer outras coisas que deveríamos fazer

Estratégias de ativismo

Abordagem total: defender determinadas estratégias de ativismo13 que consideramos ser mais eficientes

Risco: quem acredita que outras estratégias são mais eficientes pensar que não pode estabelecer nenhuma parceria conosco

Abordagem suficiente: enfatizar que é possível discordarmos de certas estratégias e concordamos com outras, e também que, mesmo que discordemos totalmente em termos de estratégias, a meta almejada é comum

Senciência e natureza da consciência

Abordagem total: defender uma posição específica em filosofia da mente e enfatizar que ela implica reconhecer que organismos com sistema nervoso com certo grau de centralização são sencientes

Risco: quem adota outra posição em filosofia da mente pensar que essa implicação decorre apenas da visão específica em questão

Abordagem suficiente: enfatizar que há uma correlação entre estados cerebrais e estados mentais, seja lá o que pensemos sobre o que é a consciência14

A possibilidade de combinar ambas as abordagens

O que foi exemplificado acima não deve ser entendido como sugerindo que a abordagem suficiente é necessariamente melhor. Apesar de ter um leque de compatibilidade maior, ela possui também sérios limites: (1) não discute a fundo as questões que estão em jogo: simplesmente evita de abordá-las; (2) implica atenuar nossa posição, em vez de realmente defender aquela que acreditamos ser a melhor; e (3) na maioria dos casos, ela só é necessária por conta de possíveis mal entendidos quanto à abordagem total (observe isso nos riscos apontados nos itens anteriores).

A ideia por trás da abordagem suficiente é atenuar a meta almejada na esperança de que um número maior de pessoas aceite parcialmente a meta (isto é, “mais pessoas fazendo menos terá um impacto maior”). Já a ideia por trás da abordagem total é a oposta: defender a meta em sua totalidade, na esperança de que um número menor de pessoas fazendo mais tenha um impacto maior.

Obviamente, para saber qual dessas abordagens funcionará melhor em quais contextos, é necessário saber o quão mais pessoas provavelmente aceitariam a abordagem suficiente, e o quão mais as pessoas que aceitariam a abordagem total fariam em prol dos animais. Isso é algo que pode variar em cada contexto.

A escolha entre uma abordagem ou outra, ou a decisão de combiná-las, dependerá, em cada caso, do contexto, do público ao qual nos dirigimos e dos objetivos específicos que buscamos. Não há uma resposta única sobre qual das duas estratégias produzirá um impacto maior em favor dos animais. O que parece claro é que estar ciente dessa distinção nos permite tomar decisões mais ponderadas sobre como comunicar nossas posições e evitar transmitir, sem querer, por meio da maneira como defendemos nossas ideias, a mensagem de que aqueles que não as compartilham plenamente não têm motivos para agir no melhor interesse dos animais.


Notas

1 Cunha, L. C. (2025) Un ativismo eficiente: Critérios para escolher quais problemas priorizar e quais estratégias adotar, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 35-45 [acessado em 18 de junho de 2026]. Um conceito semelhante (consenso sobreposto) foi desenvolvido por John Rawls para se referir à forma como os defensores de diferentes doutrinas normativas abrangentes podem chegar a um acordo sobre princípios específicos de justiça que sustentam as instituições sociais básicas de uma comunidade política. Rawls, J. (2011 [1993]) O liberalismo político, São Paulo: WMF Martins Fontes.

2 Cunha, L. C. (2025) Un ativismo eficiente: Critérios para escolher quais problemas priorizar e quais estratégias adotar, op. cit., pp. 35-36.

3 Cunha, L. C. (2025) Diferenças entre ambientalismo e consideração pelos animais qual o tamanho da divergência?, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 8-10 [acessado em 18 de junho de 2026].

4 Cunha, L. C. (2025) A quem devemos consideração moral?: O debate sobre o critèrio da senciência, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 59-60 [acessado em 18 de junho de 2026].

5 Cunha, L. C. (2025) Un ativismo eficiente: Critérios para escolher quais problemas priorizar e quais estratégias adotar, op. cit., pp. 69-74.

6 Cunha, L. C. (2025) Considerando os seres sencientes: Fundamentos da ética centrada na senciência, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 20-24 [acessado em 18 de junho de 2026].

7 Cunha, L. C. (2025) Un ativismo eficiente: Critérios para escolher quais problemas priorizar e quais estratégias adotar, op. cit., pp. 19-23.

8 Cunha, L. C. (2025) Os animais e o dano da morte: Uma investigação sobre o dano da morte e sua magnitude, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 18-22 [acessado em 18 de junho de 2026]. Para um estudo abrangente sobre a ética do ato de matar no caso dos animais, McMahan, J. (2011 [2002]) A ética no ato de matar: problemas às margens da vida, Porto Alegre: Penso.

9 Cunha, L. C. (2025) Os animais e o dano da morte: Uma investigação sobre o dano da morte e sua magnitude, Os op. cit., pp. 45-48.

10 Ibid., pp. 11-14.

11 Cunha, L. C. (2025) A ética e o futuro: O que são riscos de sofrimento futuro e como prevení-los, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 18-22 [acessado em 18 de junho de 2026]

12 Cunha, L. C. (2025) A ética e situação dos animais selvagens: Uma análise da questão dos danos naturais, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 12-15 [acessado em 18 de junho de 2026].

13 Cunha, L. C. (2025) O essencial sobre ética animal: Um resumo esquemático das principais discussões, Florianópolis: Senciência e Ética, pp. 52-54 [acessado em 18 de junho de 2026].

14 Van Gulick, R. (2014 [2004]) “Consciousness”, Stanford Encyclopedia of Philosophy, Jan 14 [acessado em 16 de junho de 2026].

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