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O governo do Reino Unido possui os meios para vacinar texugos contra a tuberculose, então por que os está matando?

European badger

O governo do Reino Unido tem matado milhares de texugos ao longo dos últimos anos, alegando que reduzir drasticamente a população de texugos reduzirá a propagação da tuberculose bovina a “níveis aceitáveis”, reduzindo o número de potenciais portadores da doença. Os assassinatos em massa referidos como “sacrifícios” são implementados com o objetivo de eliminar uma grande porcentagem de certa população. Alguns meses atrás, o Ministro da Agricultura britânico, George Eustice, anunciou planos para ampliar o assassinato de texugos para mais áreas na Inglaterra. As morte tem sido realizadas em Somerset e Gloucestershire. Elas serão ampliadas para Dorset no futuro. Eustice também informou que pedidos por mais mortes em North Devon e em Herefordshire foram solicitados1.

Autoridades do Reino Unido, como o Ministério do Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) estão preocupadas com a possibilidade de propagação da tuberculose, que pode infectar muitas espécies de animais, incluindo seres humanos. Entretanto, as autoridades estão mais preocupadas com o impacto econômico que isso teria sobre os fazendeiros. Os texugos tornaram-se seu alvo porque podem transmitir a doenças, através da sua urina, fezes, ou por saliva e cortes abertos quando comem ou bebem em comedouros e bebedouros de fazendas ou pastagens2.

 

Um programa de vacinação é possível

O governo ainda não implementou vacinações para texugos. Entretanto, existem agências privadas que poderiam fornecer as vacinas. Por exemplo, o grupo Herefordshire Badger está disposto a oferecer vacinas para tuberculose3. Se o governo permitisse que agências privadas dessem as vacinas ou, melhor ainda, se o próprio governo financiasse programas de vacinação, poderia ser prevenida a propagação da doença a vacas, e texugos e outros animais infectados através do contato com texugos também seriam ajudados. Já foram feitas vacinações contra outras doenças para animais em ambientes selvagens. Em 2010, o Defra licenciou uma vacina para texugos chamada de Badger BCG4.

Entretanto, o Defra tem favorecido matar texugos em vez de tomar outras medidas preventivas. Mais de dois mil texugos foram mortos nos dois últimos anos de “sacrifícios”5.

 

Milhares de texugos foram mortos, feridos ou ficaram órfãos, e não há previsão para o fim das mortes

Atiradores contratados disparam contra os texugos na tentativa de matá-los. Muitas vezes os texugos ficam feridos, levando a mortes lentas e frequentemente dolorosas. Tony Dean, presidente do Gloucestershire Badger Group, diz que “muitos dos texugos serão gravemente feridos. Eles voltarão ao subsolo depois de serem baleados, provavelmente mutilados gravemente. Terão uma morte longa e demorada no subsolo por envenenamento por chumbo, ou outra causa. Haverá muitos filhotes abandonados no subsolo nos casos em que as mães são baleadas na superfície.”6

As reações do público contra essas matanças não são nenhuma novidade. Uma petição online no site do governo do Reino Unido obteve 304.255 assinaturas, o maior número de assinaturas em uma petição do governo online. Em outubro de 2012, os deputados votaram a favor de uma proposta para parar a matança de texugos, com 147 a favor e somente 28 contra7.

Fatores políticos recebem maior peso que fatores éticos

O sacrifício de texugos é inaceitável por qualquer ponto de vista que leve os interesses dos animais a sério. Porém, a maioria dos argumentos dá foco a fatores que não têm nada a ver com o bem-estar das vítimas da doença. Algumas pessoas alegaram que vacinações seriam muito custosas para os contribuintes. Dar aos interesses econômicos maior peso que aos interesses dos animais é especista, mas mesmo de acordo com esse raciocínio especista isso faz pouco sentido, já que aproximadamente £6,775 por texugo foram gastas nas medidas de abate em 2012 e 20148, e o custo estimado da vacinação é cerca de £16 por dose9. Especialistas afirmam que vacinações e testes de tuberculose regulares são mais eficazes para a prevenção da doença10 11.

Então por que esses assassinatos em massa estão acontecendo? Fatores políticos têm um papel importante. John Bourne, presidente do Independent Science Group, que monitorou o processo de abate em 1997, disse: “Penso que a observação mais interessante foi feita a mim por um político veterano, que disse, ‘Legal, John, aceitamos a sua ciência, mas precisamos oferecer uma recompensa aos fazendeiros. E a única recompensa que podemos dar a eles é matar texugos.’”10

Não existe justificativa moral para desconsiderar os interesses dos texugos

Enquanto debates políticos, econômicos e científicos se alastram, os interesses dos próprios animais mal são mencionados. O motivo fundamental por que a vacinação não é usada é que os interesses dos animais não são levados em conta. É óbvio que matar jamais seria considerado uma opção se seres humanos fossem os possíveis transmissores da doença. Alternativas como a vacinação seria as únicas opções aceitáveis. Se rejeitarmos o especismo, temos que tratar os texugos da mesma forma que gostaríamos de ser tratados.

A vacinação de texugos deveria ser realizada não porque ela ajuda os fazendeiros ao parar a transmissão da doença a vacas e bezerros, mas para o bem dos próprios texugos, e também pelas vacas, bezerros e outros animais afetados pela doença. A discussão sobre se parar a propagação da tuberculose matando texugos é eficiente ou não tem como foco sua eficácia em satisfazer interesses humanos. Mesmo quando as objeções morais do público são consideradas, decisões são tomadas com base nos interesses humanos em parar as mortes, e não porque o argumento moral contra matar os animais seja aceito.

Esse não é o único caso de matança em massa de animais selvagens por causa de interesses humanos. Há casos recentes de tentativas de exterminar esquilos, cisnes, patos, corujas e veados. O presente caso com texugos pode parecer extremo porque a justificativa para matá-los realmente não funciona mesmo em seus próprios termos. Mas mesmo se matar os texugos fosse a melhor maneira de promover interesses humanos, isso é inaceitável por motivos morais se considerarmos os interesses dos texugos que são mortos ou feridos e os interesses de seus filhos órfãos.

A forte oposição a essas matanças mostra que o público opõe-se de forma cada vez maior à falta de consideração pelos animais mostrada nos sacrifícios. Graças a essa consideração crescente, se tudo der certo, a prática de matar animais não humanos por conveniência humana terminará em breve e, no fim, será somente uma parte da história.


1 Wheeler, R. (2015) “Badger cull could be extended throughout the country despite fierce opposition”, Mirror, 10 September [acessado em 12 de setembro de 2015].

2 BBC News (2012) “Q&A: The badger cull”, BBC, 23 October [acessado em 28 de setembro de 2015].

3 Morris, I. (2015) “Group set to stop TB spreading in badgers”, Ledbury Reporter, 5 September [acessado em 12 de setembro de 2015].

4 DEFRA – Department of Environment, Food & Rural Affairs (2015) “2010 to 2015 government policy: Bovine tuberculosis (bovine TB)”, Department of Environment, food & rural affairs [acessado em 23 de setembro de 2015].

6 BBC News (2013) “Badger cull v vaccines in Wales and England TB fight”, BBC, 19 May [acessado em 23 de setembro de 2015].

7 Glaze, B. (2015) “Badger cull protests to launch legal action in bid to stop Tories’ killing programme”, Mirror, 8 September [acessado em 12 de setembro de 2015].

8 BBC News (2015) “Badger culls costs taxpayer more than £16 million”, BBC News, 2 September [acessado em 18 de setembro de 2015].

9 Morris, I. (2015) “Group set to stop TB spreading in badgers”, Ledbury Reporter, 5 September [acessado em 12 de setembro de 2015].

10 UK Parliament (2007) “Badgers and cattle TB: The final report of the Independent Scientific Group on Cattle TB”, Environment, Food and Rural Affairs Committee [acessado em 21 de setembro de 2015].

11 UK Parliament (2007) “Fourth Report of Session 2007–08: Volume 1”, Environment, Food and Rural Affairs Committee [acessado em 21 de setembro de 2015]. Roberts, A. (2012) “The truth about bovines, badgers, and the spread of TB”, The Guardian, 10 November [acessado em 15 de setembro de 2015]. Bateson, P; Krebs, J; Bourne, J; Munro, R; Sillero, C; Crispin, S; MacMillan, A; Sainsbury, T; Cheeseman, C; Jones, M; Bayley, J. (2015) “Badger cull is flawed and must now stopThe Guardian, 2 September 2015 [acessado em 1 de outubro de 2015].

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