O termo rewilding (em tradução aproximada: tornar selvagem novamente), que é normalmente traduzido para o português coma renaturalização, abrange múltiplas interpretações. Tem sido caracterizado por ser utilizado de forma maleável, tendo sido transformado e adaptado de acordo com os objetivos específicos de cada projeto1. Essa falta de uniformidade em sua aplicação é amplamente reconhecida como causa de interpretações equivocadas da renaturalização tanto na prática quanto nas políticas públicas2. Alguns autores propõem que seria mais apropriado considerá-lo dentro do campo já estabelecido da restauração ecológica3.
Durante a década de 1980, na América do Norte, o conceito surgiu sob o nome inicial de recuperação de áreas selvagens (wilderness recovery)4 e, desde então, ganhou reconhecimento global5. Em seus estágios iniciais, essa prática focava na proteção e recuperação da biodiversidade nativa por meio da criação de extensas redes interconectadas de áreas protegidas, projetadas principalmente para salvaguardar espécies-chave e suas interações tróficas6.
Um primeiro modelo de renaturalização identificou três elementos fundamentais: grandes áreas centrais protegidas, conectividade ecológica e espécies-chave7. Esse modelo foi posteriormente modificado pela incorporação de aspectos como resiliência climática8, compaixão9 e coexistência10.
A renaturalização tornou-se cada vez mais popular no Reino Unido nos últimos anos. Organizações conservacionistas e grupos políticos têm pressionado pela reintrodução de espécies. A Escócia tem sido particularmente ativa nessa frente. Embora as translocações (isto é, mudar os animais de um local para outro) tenham beneficiado animais em alguns casos, como veremos mais adiante, a reintrodução de espécies selvagens revela um padrão preocupante: prioriza de maneira sistemática os ecossistemas, e ignora os interesses dos seres sencientes. Veremos isso em mais detalhes nas próximas seções.
Os conflitos iniciais entre castores e interesses de agricultores levaram à emissão de muitas licenças de controle letal. Entretanto, os programas de translocação mudaram esse panorama: 115 castores foram mortos em 202011, cifra que foi reduzida de 1º de abril de 2024 a 31 de março de 202512; sendo que o número de castores translocados aumentou de 3213 para 7914 durante o mesmo período. Embora ainda sejam necessárias melhorias, a morte de dezenas de animais a cada ano foi evitada.
Em outubro de 2025, a Comissão Escocesa de Bem-Estar Animal publicou um guia15. Este documento representa algo verdadeiramente pioneiro: uma estrutura governamental que considera explicitamente o bem-estar dos animais selvagens no planejamento das translocações. O guia reconhece: “Sem a devida consideração em todas as etapas do processo de translocação, existe o risco de que o bem-estar animal seja comprometido16.” O guia também recomenda o uso do modelo dos cinco domínios17 para avaliar os impactos sobre o bem-estar dos animais18.
No entanto, não devemos interpretar isso como evidência de que a reintrodução de espécies selvagens prioriza os animais. A estratégia para os castores enfatiza os benefícios para o ecossistema. O aumento da biodiversidade é o objetivo principal. O fato de que os indivíduos castores se beneficiaram por não morrerem é algo mais incidental – por exemplo, porque isso é mais eficaz para alcançar as metas ambientalistas – do que intencional. Os objetivos principais continuam sendo a restauração ecológica e a gestão de conflitos por conta de interesses humanos. Os benefícios para os castores são um efeito colateral positivo, não a força motriz.
Embora essa medida tenha resultado, nesse caso, em benefícios para os castores, existem outras propostas dentro do âmbito da renaturalização, como a reintrodução de grandes predadores, que expõem o conflito fundamental entre conservacionistas e antiespecistas. A campanha pela reintrodução do lince ilustra claramente essa tensão.
O Partido Verde Escocês tem defendido ativamente a reintrodução do lince. Ariane Burgess (porta-voz do partido para Assuntos Rurais) propôs uma emenda19 ao Natural Environment (Scotland) Bill – Projeto de Lei do Meio Ambiente Natural (Escócia)20 para facilitar o retorno da espécie.
Diversas organizações conservacionistas formaram a aliança Lynx to Scotland (“Lince para a Escócia”)ess para promover esse objetivo21. Em janeiro de 2026, uma grande consulta pública foi lançada nas Highlands e em Moray, alcançando aproximadamente 89.000 famílias com informações e planejamento por meio de 42 reuniões públicas. A consulta sugere que a região poderia eventualmente abrigar até 250 linces, com uma soltura inicial de talvez 20 animais ao longo de vários anos22.
A reintrodução do lince causaria sofrimento a diversas categorias de animais. No entanto, as propostas de reintrodução minimizam ou ignoram completamente essas implicações.
Se essa medida é colocada em prática, milhares de cervos e outros animais seriam caçados, perseguidos, feridos e mortos. Cada evento de predação envolve sofrimento enorme. Ser perseguido por predadores gera medo e estresse nas vítimas. Os ataques causam dor e ferimentos. Muitas presas não morrem rapidamente, sofrendo por longos períodos antes da morte. Os filhotes separados dos pais durante a caçada sofrem tormentos, e podem morrer de fome ou também serem caçadas por predadores. Animais que escapam a um ataque podem sofrer feridas dolorosas que infeccionam ou comprometem sua capacidade de se alimentar.
Além disso, os cervos deixariam de pastar em áreas abertas por medo de serem predados pelo lince e se esconderiam em locais onde os linces não pode vê-los facilmente. Nesses locais, se alimentariam de outras plantas, menos abundantes e menos nutritivas. A dinâmica biológica resultante disso é chamada de “ecologia do medo”23.
Isso é afirmado diretamente por organizações que apoiam a renaturalização, como a Rewinding Britain:
“Predadores de topo, como lobos e linces, são uma parte importante dos nossos ecossistemas. Eles alteram o comportamento das espécies de presas por meio da chamada ecologia do medo. Por meio de fezes, urina ou arranhões, os linces deixam marcas de cheiro que anunciam a sua presença. Isso mantém os animais em movimento, o que ajuda a prevenir o sobrepastoreio e permite que mudas de árvores e outras vegetações se estabeleçam.
Os linces também predam diretamente corças, que são superabundantes em grande parte da Grã-Bretanha. Eles atacam ungulados maiores, como veados-vermelhos ou renas, quando outras presas estão escassas. Os linces também comem raposas, coelhos, lebres, roedores e aves. As carcaças deixadas pelos linces fornecem alimento para outras espécies e ajudam a fertilizar o solo à medida que se decompõem”24.
As propostas feitas até agora envolveram a transferência de linces da Europa continental para a Escócia.
Os linces transferidos sofreriam um estresse significativo durante todo o processo de translocação. Eles enfrentariam o trauma da captura, o estresse durante o transporte e o desafio de adaptação a um território desconhecido, pois teriam que se estabelecer em paisagens que nunca encontraram antes.
Projetos de renaturalização aumentariam a quantidade total de sofrimento devido a expandirem e intensificarem paisagens onde esse sofrimento é endêmico.
A dinâmica populacional envolve uma enorme quantidade de sofrimento que permanece invisível nas análises ambientalistas. A maioria dos animais selvagens morre jovem, muitas vezes de forma dolorosa. Inanição, doenças, exposição ao clima, predação e ferimentos são comuns na natureza. A grande maioria dos animais selvagens vive vidas curtas e repletas de problemas25. O inverno causa sofrimento e morte generalizados. Ferimentos e doenças não são tratados. A competição cria estresse crônico. A seleção natural favorece características que aumentam o sucesso reprodutivo, não características que minimizam o sofrimento. De fato, espécies que produzem muitos descendentes com baixo investimento parental apresentam taxas de mortalidade particularmente altas, com a maioria dos indivíduos morrendo logo após o nascimento.
Como vimos, o processo de renaturalização no Reino Unido revela uma tensão fundamental: a divergência entre ambientalismo e antiespecismo.
O ambientalismo enxerga o valor dos animais somente (ou principalmente) enquanto componentes de sistemas maiores. Segundo essa perspectiva, os animais importam na medida em que contribuem para a viabilidade populacional, para o funcionamento do ecossistema ou a preservação da biodiversidade. Segundo essa visão, a morte de um cervo por predação não é um problema que diga respeito ao bem-estar animal, e sim à restauração da dinâmica natural. Nessa perspectiva, o sofrimento da presa não é visto como um problema, e sim, simplesmente como um aspecto do funcionamento saudável dos ecossistemas.
O antiespecismo, por outro lado, defende que valor dos animais reside em serem indivíduos sencientes com seus próprios interesses. Cada animal pode sofrer ou prosperar, independentemente do papel que essa experiência desempenha na dinâmica mais ampla do ecossistema. O antiespecismo defende que é isso o que importa. A experiência de um cervo ser caçado importa porque esse cervo é senciente e capaz de sentir medo, dor e angústia — não porque o evento de predação sirva ou não às funções do ecossistema.
Essas prioridades divergentes levam a recomendações políticas fundamentalmente diferentes. Como podemos ver, o ambientalismo defende a renaturalização, a reintrodução de predadores e a expansão de paisagens selvagens. Já os antiespecistas levantam preocupações em relação ao sofrimento que esses projetos causarão e questionam se os objetivos de restauração do ecossistema podem justificar causar ou perpetuar o sofrimento dos animais.
As recentes diretrizes do Governo Escocês sobre o impacto da translocação no bem-estar dos animais representam um progresso no reconhecimento do bem-estar dos animais selvagens enquanto indivíduos, mas ainda são limitadas. As diretrizes abordam o bem-estar dos animais na prática da translocação, mas não discutem se a introdução de predadores que causarão sofrimento contínuo às presas pode ser justificada a partir de uma perspectiva preocupada com o bem-estar26.
A prática da renaturalização tornou-se uma importante estratégia de conservação no Reino Unido. Embora o programa de translocação de castores tenha trazido benefícios ao reduzir o controle letal, isso não deve obscurecer o padrão mais amplo de pensamento ambientalista que predomina nas iniciativas de renaturalização.
O sofrimento dos animais translocados, o sofrimento das presas que serão caçadas e mortas e a expansão de paisagens onde o sofrimento é endêmico têm sua importância minimizada, são ignorados ou mesmo ativamente celebrados como a restauração de “processos naturais” pelos defensores da renaturalização.
As recentes diretrizes do governo da Escócia sobre translocação são positivas, representando um reconhecimento governamental pioneiro de que o bem-estar dos animais selvagens importa. No entanto, essa estrutura continua tendo um alcance limitado, e ainda não restringe de forma significativa as ambições das práticas de renaturalização quando os interesses de seres sencientes entram em conflito com as metas ambientalistas.
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1 Jørgensen, D. (2015) “Rethinking rewilding”, Geoforum, 65, pp. 482-488.
2 Pettorelli, N.; Barlow, J.; Stephens, P. A.; Durant, S. M.; Connor, B.; Schulte to Bühne, H.; Sandom, C. J.; Wentworth, J. & Toit, J. T. du (2018) “Making rewilding fit for policy”, Journal of Applied Philosophy, 55, pp. 1114-1125 [acessado em 7 de janeiro de 2026].
3 Hayward, M. W.; Scanlon, R. J.; Callen, A.; Howell, L. G.; Klop-Toker, K. L.; Di Blanco, Y.; Balkenhol, N.; Bugir, C. K.; Campbell, L.; Caravaggi, A.; Chalmers, A. C.; Clulow, J.; Clulow, S.; Cross, P.; Gould, J. A.; Griffin, A. S.; Heurich, M.; Howe, B. K.; Jachowski, D. S.; Jhala, Y. V. & Weise, F. J. (2019) “Reintroducing rewilding to restoration–Rejecting the search for novelty”, Biological Conservation, 233, pp. 255-259.
4 Carver, S.; Convery, I.; Hawkins, S.; Beyers, R.; Eagle, A.; Kun, Z.; Van Maanen, E.; Cao, Y.; Fisher, M.; Edwards, E. R.; Nelson, C.; Gann, G. D.; Shurter, S.; Aguilar, K.; Andrade, A.; Ripple, W. J.; Davis, J.; Sinclair, A.; Bekoff, M.; Noss, R.; Foreman, D.; Pettersson, H.; Root-Bernstein, M.; Svenning, J.-C.; Taylor, P.; Wynne-Jones, S.; Featherstone, A. W.; Fløjgaard, C.; Stanley-Price, M.; Navarro, L. M.; Aykroyd, T.; Parfitt, A. & Soulé, M. (2021) “Guiding principles for rewilding”, op. cit.
5 Johns, D. (2019) “History of rewilding: Ideas and practice”, in Pettorelli, N.; Durant, S. & Toit, J. du (eds.) Rewilding, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 12-33.
6 Power, M. E.; Tilman, D.; Estes, J. A.; Menge, B. A.; Bond, W. J.; Mills, L. S.; Daily, G.; Castilla, J. C.; Lubchenco, J. & Paine, R. T. (1996) “Challenges in the quest for keystones: Identifying keystone species is difficult—but essential to understanding how loss of species will affect ecosystems”, Bioscience, 46, pp. 609-620.
7 Soulé, M. E. (1999) “An unflinching vision: Networks of people for networks of wildlands”, Wild Earth, 9 (4), pp. 38-46.
8 Carroll, C. & Noss, R. F. (2020) “Rewilding in the face of climate change”, Conservation Biology, 35, pp. 155-167 [acessado em 8 de janeiro de 2026].
9 Bekoff, M. (2014) Rewilding our hearts: Building pathways of compassion and coexistence, Novato: New World Library. Kopnina, H.; Leadbeater, S. & Cryer, P. (2019) “Learning to rewild: Examining the failed case of the Dutch ‘New Wilderness’ Oostvaardersplassen”, International Journal of Wilderness, 25, pp. 72-89 [acessado em 7 de janeiro de 2026].
10 Johns, D. (2019) “History of rewilding: Ideas and practice”, op. cit.
11 NatureScot (2021) “Beaver management report for 2020”, NatureScot, August [acessado em 7 de janeiro de 2026].
12 NatureScot (2025) “Beaver management report: 01 April 2024 to 31 March 2025”, NatureScot [acessado em 7 de janeiro de 2026].
13 Beaver Trust (2021) “Beaver management report for 2020”, NatureScot, op. cit.
14 NatureScot (2025) “Beaver management report: 01 April 2024 to 31 March 2025”, op. cit.
15 Scottish Animal Welfare Commission (2025) Wild animal translocations: Animal welfare risk assessment guidance, Edinburgh: The Scottish Animal Welfare Commission Secretariat [acessado em 7 de janeiro de 2026].
16 Ibid., p. 4.
17 Mellor, D. J. (2017) “Operational details of the Five Domains Model and its key applications to the assessment and management of animal welfare”, Animals, 7 (8), 60 [acessado em 7 de janeiro de 2026].
18 Scottish Animal Welfare Commission (2025) Wild animal translocations: Animal welfare risk assessment guidance, op. cit.
19 Scottish Parliament (2025) Natural Environment (Scotland) Bill [acessado em 7 de janeiro de 2026].
20 Scottish Greens (2025) “Scotland should reintroduce wild Lynx: Greens call for reintroduction of Lynx”, Scottish Greens, 14 Nov 2025 [acessado em 7 de janeiro de 2026].
21 SCOTLAND: The Big Picture (2020) “Lynx to Scotland”, SCOTLAND: The Big Picture [acessado em 7 de janeiro de 2026].
22 Campsie, A. (2026) “90,000 homes across Highland and Moray asked views on return of lynx”, The Scotsman, 6th January 2026 [acessado em 7 de janeiro de 2026].
23 Horta, O. (2010) “The ethics of the ecology of fear against the nonspeciesist paradigm: A shift in the aims of intervention in nature”, Between the Species, 13 (10) [acessado em 12 de janeiro de 2026].
24 Rewilding Britain (2024) “Eurasian lynx: Lynx lynx”, Rewilding Britain [acessado em 7 de janeiro de 2026].
25 For extensive discussion of suffering in wild populations, see: Ng, Y. K. (1995) “Towards welfare biology: Evolutionary economics of animal consciousness and suffering”, Biology and Philosophy, 10, pp. 255-285; Horta, O. (2010) “Debunking the idyllic view of natural processes: Population dynamics and suffering in the wild”, Télos, 17 (1), pp. 73-88 [acessado em 7 de janeiro de 2026].
26 Scottish Animal Welfare Commission (2025) Wild animal translocations: Animal welfare risk assessment guidance, op. cit.