Como animais selvagens são tratados em emergências globais (guerras e desastres naturais)

Como animais selvagens são tratados em emergências globais (guerras e desastres naturais)

18 Ago 2026

Qualquer emergência — seja uma guerra, uma pandemia ou um desastre natural — afeta gravemente as vidas dos indivíduos atingidos por ela. Toda comunidade afetada inclui vários seres sencientes que reagem de maneiras diferentes a tal perturbação. Hoje, os países enfrentam emergências complexas com múltiplas crises sobrepostas ocorrendo simultaneamente. No entanto, quando essas emergências globais são estudadas, o foco é principalmente as experiências humanas. Os animais selvagens, que também são uma parte senciente desses sistemas perturbados, são frequentemente ignorados. Assim, embora o tamanho de seu sofrimento seja gigantesco, ele permanece amplamente ausente dos relatórios. De fato, carecemos até mesmo das ferramentas básicas para avaliar ou responder ao impacto que essas ocorrências têm sobre os animais selvagens.

Essa tendência de ignorar o destino de seres sencientes não humanos limita nossa compreensão do sofrimento animal, especialmente quando tanto a ação quanto a inação humanas estão na raiz desse problema.

Desastres naturais e seu impacto sobre os animais selvagens

Por que desviamos o olhar dos animais durante desastres naturais?

As pessoas tendem a desviar o olhar do sofrimento dos animais durante desastres porque:

·⠀Consideram que animais não humanos possuem menos valor moral do que os humanos e, portanto, atribuem menos peso ao seu sofrimento;

·⠀Sustentam que não devemos intervir nos resultados de processos naturais prejudiciais, mas mantêm essa posição apenas quando as vítimas são animais não humanos (isto é, sustentam uma veneração pelo que é natural, mas subordinada ao especismo antropocêntrico);

·⠀Percebem grandes números de animais como espécies, em vez de vidas de muitos indivíduos que foram perdidas;

·⠀Percebem apenas os sobreviventes, permanecendo alheias à imensa e invisível perda de outros seres sencientes, muitas vezes devido à falta de informações sobre suas mortes;

·⠀Presumem que os animais, por estarem mais próximos da natureza, estão naturalmente mais bem equipados do que os humanos para lidar com tais desastres.

Em vez disso, o que devemos considerar:

·⠀Atribuir menos peso moral a animais não humanos é especismo, uma forma de discriminação.

·⠀Todos os seres sencientes capazes de sofrer danos têm interesse em evitá-los. Se dois seres sencientes podem sofrer lesões, medo ou desespero, o simples fato de um deles pertencer a uma espécie diferente não justifica, por si só, atribuir menos peso moral aos seus interesses. Isso revela uma inconsistência no raciocínio ético.

·⠀Princípios éticos devem ser aplicados de forma consistente a todos os seres sencientes. Se níveis mais elevados de racionalidade, inteligência ou outras capacidades cognitivas não justificam dar uma consideração moral desigual a humanos, essas coisas não podem servir de base para tratar animais não humanos como moralmente irrelevantes ou como inferiores.

·⠀Da mesma forma, a causa do sofrimento não altera a experiência do indivíduo que passa por ele. Desastres naturais são prejudiciais. Independentemente de sua origem, eles resultam em imenso sofrimento. Assim, se a razão para evitar danos é o fato de serem prejudiciais às vítimas, então a força dessas razões deve depender da magnitude do dano, e não de sua origem ser antropogênica ou natural.

·⠀A exposição contínua a ameaças naturais não torna os animais selvagens “mais fortes” ou imunes a danos. Pelo contrário, a exposição repetida a doenças, inanição, condições climáticas extremas e outros fatores de estresse tem maior probabilidade de comprometer o bem-estar deles.

·⠀Humanos possuem instintos de sobrevivência; ainda assim, muitos morrem em desastres, mesmo contando com ajuda e recursos. Os animais selvagens enfrentam riscos ainda maiores, pois não dispõem de abrigos ou apoio. O instinto de sobrevivência, na melhor das hipóteses, é apenas uma força de reação a uma ameaça percebida.

·⠀Barreiras criadas por humanos, a redução de habitats e as necessidades específicas dos animais das várias espécies tornam a migração muito difícil. Alguns animais, como pandas e répteis, não conseguem se deslocar rapidamente nem sobreviver fora de seus ambientes nativos. Mesmo quando se deslocam, podem enfrentar conflitos ou a morte em novas áreas. Além disso, muitos animais na natureza são muito jovens e, portanto, particularmente vulneráveis durante desastres, devido à sua capacidade limitada de fugir ou de sobreviver por conta própria.

Formas pelas quais desastres naturais afetam animais selvagens:

·⠀Danos diretos: Como os animais selvagens vivem em contato constante e imediato com a natureza, são os primeiros a sofrer danos físicos diretos, incluindo afogamento durante inundações, soterramento sob escombros em deslizamentos de terra ou terremotos, queimaduras graves durante incêndios florestais ou serem atingidos por fluxos de lava durante erupções vulcânicas. A magnitude desses danos é intensa.

Durante os incêndios florestais no Pantanal brasileiro em 2020, pesquisadores estimaram que pelo menos 16,95 milhões de vertebrados morreram imediatamente em decorrência do fogo.1 Vale ressaltar que o número de invertebrados mortos foi provavelmente muito maior, visto que eles são muito mais numerosos. No entanto, como os invertebrados geralmente recebem ainda menos atenção do que os vertebrados, não existem estatísticas sobre suas mortes. É provável que muito mais animais tenham perdido a vida, especialmente devido à exposição à fumaça. Durante erupções vulcânicas e incêndios florestais, a fumaça costuma se propagar para muito além da fonte, causando efeitos nocivos em uma área muito mais extensa. A inalação de fumaça pode provocar intoxicação por monóxido de carbono, dificuldades respiratórias, comprometimento neurológico, estresse oxidativo, doenças respiratórias e cardiovasculares, imunossupressão e edema pulmonar em animais selvagens terrestres e aquáticos — condições que, em muitos casos, podem ser fatais.2

O mesmo padrão se repetiu em 2026, em dois continentes simultaneamente. Na Espanha, os incêndios que queimavam nas províncias de Ávila, Madri e Toledo se uniram no fim de julho em um único foco. Em 28 de julho, ele já havia devastado mais de 80 mil hectares, e a área acumulada queimada no conjunto do país chegava a 173.651 hectares. No Canadá, no início de julho cerca de 800 incêndios florestais ocorriam simultaneamente, da Colúmbia Britânica até a Nova Escócia, e na metade do mês já se tinham perdido 2,78 milhões de hectares, uns 300 mil acima da média dos últimos dez anos.

Não existe estimativa das mortes de animais selvagens para nenhum dos dois eventos. Seis anos depois de pesquisadores utilizarem a amostragem por distância para determinar que quase 17 milhões de vertebrados morreram nos incêndios do Pantanal, nenhuma contagem comparável foi realizada para a Península Ibérica ou para a floresta boreal canadense. A ausência de um número não prova que as mortes não ocorreram. Em vez disso, ela reflete o fato de que ninguém foi encarregado de contabilizá-las. Áreas protegidas queimadas são contabilizadas em hectares; os animais que viviam nesses hectares são registrados apenas como “habitat”.

·⠀Escassez de recursos: A sobrevivência dos animais selvagens depende de recursos essenciais, como alimento, água, abrigo e um habitat adequado. Desastres naturais podem reduzir tanto a disponibilidade quanto a acessibilidade desses recursos. Erupções podem durar meses ou anos, expelindo lava e cinzas abrasivas e tóxicas, provocando explosões e aquecendo a água próxima a ponto de ferver animais marinhos vivos.3 Terremotos e furacões causam fragmentação do território, dificultando o deslocamento e a sobrevivência dos animais. Enchentes e tsunamis frequentemente trazem substâncias químicas nocivas, enquanto secas esgotam áreas úmidas e reduzem as fontes de água. Sem abrigo, água limpa ou alimento suficiente, muitos animais sofrem com a desidratação e a inanição.

Por exemplo, os incêndios florestais de 2020, que devastaram mais de 11,2 milhões de hectares na Austrália, danificaram cerca de 30% dos habitats de coalas — as florestas de eucalipto, utilizadas por eles tanto para alimentação quanto para abrigo.4 Muitos coalas, incapazes de escapar das chamas, morreram queimados. Outros sobreviveram, apenas para enfrentar dias de sede e fome.

Migração e reprodução: Desastres relacionados ao clima, como ondas de calor, secas e tempestades, estão prejudicando os locais onde as aves se reproduzem e migram.

Esse é, por exemplo, o caso dos gansos-do-ártico na tundra siberiana. Eles dependem de terrenos abertos e rochosos para pôr seus ovos, construir ninhos e criar seus filhotes. No entanto, o aumento das temperaturas está derretendo o solo congelado, permitindo que florestas se expandam pela região. Especialistas estimam que entre 10% e 93% de seu território de reprodução serão perdidos nos próximos anos caso essa expansão continue.5 Como os ninhos oferecem proteção contra predadores e condições ambientais adversas, a ausência deles expõe essas aves a ameaças e à miséria, causando, assim, mais sofrimento.

·⠀Aumento do conflito entre humanos e animais selvagens: O conflito entre humanos e animais selvagens é qualquer interação entre animais selvagens e seres humanos que cause danos, seja ao humano ou ao animal selvagem.6

Desastres naturais agravam esse conflito.

·⠀Animais entram em áreas dominadas por humanos para fugir da destruição.

·⠀Sem alimento na natureza, eles comem plantações ou atacam animais nas fazendas.

·⠀Animais famintos, feridos ou apavorados podem agir de forma mais agressiva.

·⠀Após desastres, as pessoas frequentemente reconstroem casas em áreas florestais, o que leva a mais encontros.

Um exemplo de como tais conflitos podem ser abordados pode ser encontrado em Kerala, um estado indiano onde animais selvagens como elefantes, gaures (bisões-indianos), javalis, tigres, leopardos e macacos frequentemente entram em conflito com as pessoas. O governo declarou oficialmente o conflito entre humanos e animais selvagens como um desastre estadual.7 Para enfrentar a situação, o governo implementou seus próprios programas em vez de recorrer à matança retaliatória de animais selvagens — uma prática comum em muitos outros países, apesar de ser cruel e ineficaz. Essas iniciativas incluem um sistema de alerta por SMS que avisa sobre a movimentação de elefantes e outros animais selvagens, bem como programas que garantem a disponibilidade de água e alimento dentro da floresta para desencorajar os animais de entrar em áreas habitadas por humanos.8 Essas práticas reduziram a incidência de tais conflitos.

·⠀Mudanças de longo prazo: Mudanças de longo prazo são impactos que persistem por meses ou até anos após um desastre. Elas incluem fontes de água poluídas, aumento da salinidade e outras alterações ambientais que podem reduzir a disponibilidade de alimento e abrigo, ou afetar de outras formas o bem-estar dos animais selvagens.

Guerras e seu impacto sobre animais selvagens

Quando os humanos entram em conflito, os animais também sofrem.9

Nos últimos três anos, uma média de mais de 20 países vivenciou conflitos graves a cada mês.10 A história tem revelado, ao longo do tempo, o impacto devastador das guerras; no entanto, muitas vezes deixamos de reconhecer os danos que elas infligem para além do mundo humano.

Animais frequentemente se tornam vítimas da guerra. Muitos são mortos diretamente por armas, enquanto outros sofrem e morrem lentamente devido à fome, a ferimentos e à perda de outros recursos essenciais para a sobrevivência. Mais do que nunca, são explorados como soldados ou recursos em conflitos humanos, sendo que sua capacidade de sentir dor, medo e angústia recebe pouco ou nenhum peso moral.

A guerra, além das armas tradicionais, agora inclui:

·⠀Armas biológicas: disseminam patógenos entre animais selvagens, possibilitam a transmissão de doenças entre animais de diferentes espécies, causam alterações genéticas a longo prazo e afetam negativamente a disponibilidade de alimentos e a qualidade do habitat.

·⠀Armas nucleares: causam danos em larga escala aos animais selvagens por meio de tempestades de fogo ou ondas de choque, mutações genéticas, envenenamento por radiação e muitos outros efeitos.

·⠀Armas químicas: animais são envenenados ao inalar gases tóxicos, absorver substâncias químicas pela pele ou consumir água e alimentos contaminados.

O surgimento de armas biológicas, nucleares e químicas transformou a natureza da guerra ao ampliar tanto a escala quanto a duração dos danos. Visto que seus efeitos podem se propagar entre indivíduos de diversas espécies e persistir muito depois do fim dos conflitos ativos, ainda não temos certeza sobre a extensão de seu impacto. Como resultado, uma quantidade potencialmente enorme de sofrimento continuará ocorrendo fora de nossa percepção, a menos que se dedique atenção contínua e recursos ao estudo de seus impactos sobre os animais selvagens e às formas de mitigar esses danos.

Ainda assim, as evidências existentes oferecem razões convincentes para acreditar que a guerra tem causado sofrimento generalizado aos animais selvagens. Um exemplo é o Agente Laranja, um herbicida químico amplamente utilizado durante a Guerra do Vietnã. Mais de cinquenta anos depois, ainda sabemos pouco sobre o impacto total dessa substância sobre os animais selvagens. As evidências disponíveis sugerem que invertebrados aquáticos — como plecópteros (Plecoptera), tricópteros (Trichoptera), efemerópteros (Ephemeroptera) e cladóceros (Cladocera) — estavam entre os mais vulneráveis à exposição.11 Não existem pesquisas que detalhem exatamente como o Agente Laranja afetou esses animais, mas o contato com solo e água contaminados provavelmente levou à morte desses seres sencientes.

Conclusão

Emergências globais, como desastres naturais e guerras, estão entre as fontes mais significativas de perturbação no que diz respeito à escala (o número de indivíduos afetados), à magnitude (a gravidade dos danos) e à duração (por quanto tempo esses danos persistem) de seu impacto entre animais de diversas espécies. Como discutido, animais selvagens vivenciam inúmeras formas de sofrimento durante e após tais eventos, incluindo danos imediatos, indiretos e de longo prazo. Apesar da extensão de seu sofrimento, o bem-estar desses animais continua sendo considerado de forma inadequada durante a gestão de desastres.

Em qualquer crise, protegemos aquilo que acreditamos ser mais importante. No entanto, nossa perspectiva é moldada por vieses como o especismo e o antropocentrismo. Esses vieses restringem nossa visão ao ignorar os interesses de inúmeros seres sencientes capazes de experimentar danos, medo, agonia e privação. Se as emergências são compreendidas como eventos que perturbam a vida de seres sencientes, então nossa avaliação de seus efeitos não pode se limitar apenas às experiências humanas. Portanto, torna-se essencial considerar o bem-estar dos animais selvagens nas etapas de preparação, resposta e recuperação de desastres, especialmente quando a intervenção pode prevenir ou aliviar o sofrimento deles.


Notas

1 Tomas, W. M.; Berlinck, C. N.; Chiaravalloti, R. M.; Faggioni, G. P.; Strüssmann, C.; Libonati, R.; Abrahão, C. R.; Alvarenga, G. do V.; Faria Bacellar, A. E. de; Queiroz Batista, F. R. de; Bornato, T. S.; Restel Camilo, A.; Castedo, J.; Espinóza Fernando, A. M.; Oliveira de Freitas, G.; Martins Garcia, C.; Santos Gonçalves, H.; Freitas Guilherme, M. B. de; Guedes Layme, V. M.; Gomes Lustosa, A. P.; Carneiro de Oliveira, A.; Oliveira, M. da R.; Martins Pereira, A. de M.; Abrantes Rodrigues, J.; Fernandes Semedo, T. B.; Ducel de Souza, R. A.; Rodrigo Tortato, F.; Passos Viana, D. F.; Vicente-Silva, L. & Morato, R. (2021) “Distance sampling surveys reveal 17 million vertebrates directly killed by the 2020’s wildfires in the Pantanal, Brazil”, Scientific Reports, 11, 23547 [acessado em 15 de julho de 2026].

2 Sanderfoot, O. V.; Bassing, S. B.; Brusa, J. L.; Emmet, R. L.; Gillman, S. J.; Swift, K. & Gardner, B. (2021) “A review of the effects of wildfire smoke on the health and behavior of wildlife”, Environmental Research Letters, 16, 123003 [acessado em 12 de julho de 2026].

3 Animal Ethics (2021) “Animals in natural disasters”, Animal Ethics [acessado em 15 de julho de 2026].

4 Paul, S. (2020) “‘Ecological disaster’: Australian bushfires endanger koalas, wallabies”, Science, The Wire, 13/01/2020 [acessado em 15 de julho de 2026].

5 Wood, S. (2023) “How climate change is affecting migrating birds”, Birdbuddy Tales, February 27 [acessado em 15 de julho de 2026].

6 Ramachandra, K.; Bakash, S. A. & Nagabhushana, S. (2018) Ability enhancement, Nagpur: Himalaya, ch. 2.

7 Saseendran, A K. (2025) “From conflict to coexistence: Rethinking our survival with wildlife”, Arnayam, 45 (4), p. 6 [acessado em 15 de julho de 2026].

8 Saseendran, A K. (2025) “From conflict to coexistence: Rethinking our survival with wildlife”, op. cit., p. 7

9 The Economist (2018) “How war affects wildlife”, The Economist, Jan 11th 2018 [acessado em 15 de julho de 2026].

10 Institute for Economics & Peace (2025) Global Peace Index 2025, Sydney: Institute for Economics & Peace [acessado em 15 de julho de 2026].

11 Truong, K. N. & Khuong V. D. (2021) “Agent Orange: Half-century effects on the Vietnamese wildlife have been ignored”, Environmental Science & Technology, 55, pp. 15007-15009 [acessado em 15 de julho de 2026].