Pesquisa em biologia do bem-estar: competição sexual

10 Jul 2019

As metas principais da biologia do bem-estar são melhorar nosso entendimento da qualidade da vida dos animais em relação aos seus ambientes e encontrar as maneiras mais promissoras de ajudá-los. Há um amplo leque de tópicos que a biologia do bem-estar pode abordar. Ao estudar o bem-estar dos animais selvagens, investigações sobre biologia evolutiva em geral, e na história de vida dos animais em particular, pode ser muito útil. Este campo visa explicar padrões de crescimento, reprodução e morte dos animais, em termos de seleção natural e em relação aos seus ambientes. Esse conhecimento pode ser muito útil para descobrir como podem ser as vidas dos indivíduos nas diferentes populações.

Abaixo está o esboço de um projeto sobre competição sexual que ilustra o tipo de pesquisa de histórias de vida que poderia ser desenvolvido em biologia do bem-estar. Essa ideia de projeto de pesquisa é esquematizada com um escopo amplo, motivo pelo qual foram incluídas listas de espécies possíveis e proxies de bem-estar dignas de serem consideradas.

Esperamos inspirar pessoas que trabalham com pesquisa, interessadas em seleção e competição sexual e outros tópicos relacionados a histórias de vida a desenvolverem os seus próprios projetos de pesquisa adaptados às suas próprias circunstâncias. Os resultados poderiam melhorar nosso entendimento do sofrimento dos animais selvagens.

Ideia de projeto: custos da competição sexual sobre o bem-estar

A seleção sexual é considerada uma forma de seleção natural que favorece adaptações para a aquisição de parceiros(as), em vez de adaptações para a sobrevivência1. Apesar de certos traços poderem aumentar a aptidão de um indivíduo em termos tanto de sobrevivência quanto de reprodução (por exemplo, nutrir-se de maneiras eficientes aumenta as chances de sobrevivência e provê nutrientes para o crescimento de ornamentos sexuais, tais como penas coloridas), traços sexualmente selecionados podem também dificultar as chances de sobrevivência de um indivíduo.

Em muitas espécies de animais, os traços que possibilitam aos indivíduos aumentar sua habilidade de adquirir parceiros(as) são selecionados de duas maneiras gerais: competição entre parceiros(as) (seleção intrassexual) e escolha de parceiros(as) (seleção intersexual). A primeira ocorre quando os indivíduos se envolvem em combates com rivais do mesmo sexo, e favorece características de agressão (armas) como chifres, galhos, garras e comportamento agressivo. A segunda ocorre quando indivíduos do mesmo sexo se envolvem exibições de cortejo para atrair indivíduos do sexo oposto, e favorece o desenvolvimento de ornamentos sexuais como cores, odores, danças elaboradas e vocalizações2. Muitos desses traços foram associados com a diminuição das chances de sobrevivência de indivíduos de um sexo3. Os grandes chifres dos alces machos, por exemplo, são volumosos e pesados, reduzindo sua capacidade de escapar de predadores, e os chifres podem se emaranhar em galhos de árvores mais baixas e arbustos, aumentando o risco de morte dos indivíduos do sexo masculino. Colorações brilhosas e vocalizações elaboradas, tais como aquelas vistas em muitos pássaros e sapos machos, atraem não somente as fêmeas, mas também predadores.

Isso sugere que a competição sexual pode causar sofrimento individual, seja diretamente, tais como ferimentos devido à luta por uma parceira ou parceiro, ou indiretamente, como quando os animais se envolvem em comportamentos de cortejo que os tornam mais susceptíveis de serem predados. Entretanto, nenhum estudo determinou ainda se existe tal custo ou tentou quantificá-lo. Fazê-lo é importante, pois em espécies com seleção sexual muito forte, a competição sexual pode ser uma das principais causas de mortalidade e de sofrimento.

Propósito geral

 Determinar os efeitos direitos e indiretos da competição sexual sobre o bem-estar dos indivíduos que pertencem a espécies onde a seleção sexual é uma força seletiva dominante.

Os efeitos diretos e indiretos podem ser investigados separadamente em diferentes projetos de pesquisa.

Objetivos

  • Identificar espécies de mamíferos e aves em que a força seletiva principal é a seleção sexual (foco nessas taxas para facilitar a identificação dos custos de bem-estar).
  • Identificar as maneiras pelas quais a competição e escolha de parceiro(as) afetam o bem-estar dos indivíduos de ambos os sexos.
  • Analisar os efeitos da competição sexual sobre o bem-estar usando métodos quantitativos e qualitativos.

Espécies a serem consideradas

Para os efeitos diretos da competição sexual no bem-estar de animais

  • Elefante-marinho-do-norte (Mirounga angustirostris): o alto tamanho de dimorfismo sexual foi associado a altas taxas de mortalidade masculina4.
  • Gamo (Dama dama), songue (Kobus leche), alce Roosevelt (Cervus canadensis roosevelti), veado-de-cauda-branca (Odoicoleus virginianus): machos com grandes chifres lutam violentamente durante o cio5.

Para os efeitos indiretos da competição sexual no bem-estar dos animais

  • Galo-da-serra (Rupicola rupicola), tetraz-cauda-de-faisão (Centrocercus urophasianus): risco de predação associado com leks* 6.
  • Lugre (Spinus spinus) e outras aves passeriformes onde o risco de predação é associado ao brilho da plumagem7.

Proxies de bem-estar a serem consideradas

  • Ferimentos causados pela competição sexual
  • Todas as formas de fome influenciada pelo gênero (onde um sexo tem maiores necessidades nutricionais do que outro).
  • Taxa de predação (onde um sexo é mais visível do que outro).
  • Tempo de vida.
  • Mortalidade

Impactos esperados

  • Maior entendimento das maneiras pelas quais a competição sexual causa sofrimento.
  • Maior entendimento da dimensão do sofrimento imposto pela competição sexual.
  • Identificação de espécies onde a seleção sexual coloca custos significativos sobre o bem-estar.
  • Maior entendimento do potencial para intervenções na natureza para reduzir o sofrimento causado pela seleção sexual devido aos impactos acima.

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Leituras adicionais

Bonduriansky, R.; Maklakov, A.; Zajitschek, F. & Brooks, R. (2008) “Sexual selection, sexual conflict and the evolution of ageing and life span”, Functional Ecology, 22, pp. 443-453 [acessado em 27 de fevereiro de 2019].

Christe, P.; Keller, L. & Roulin, A. (2006) “The predation cost of being a male: Implications for sex-specific rates of ageing”, Oikos, 114, pp. 381-384.

Liker, A. & Székely, T. (2005) “Mortality costs of sexual selection and parental care in natural populations of birds”, Evolution, 59, pp. 890-897.

Nunn, C. L.; Lindenfors, P.; Pursall, E. R. & Rolff, J. (2009) “On sexual dimorphism in immune function”, Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 364, pp. 61-69 [acessado em 25 de fevereiro de 2019].

 Promislow, D.; Montgomerie, R. & Martin, T. E. (1994) “Sexual selection and survival in North American waterfowl”, Evolution, 48, pp. 2045-2050 [acessado em 14 de fevereiro de 2019].

Rankin, D. J. & Kokko, H. (2006) “Sex, death and tragedy”, Trends in Ecology & Evolution, 21, pp. 225-226.

Toïgo, C. & Gaillard, J. M. (2003) “Causes of sex‐biased adult survival in ungulates: Sexual size dimorphism, mating tactic or environment harshness?”, Oikos, 101, pp. 376-384 [acessado em 3 de fevereiro de 2019].

Notas

1 Rice, S. A. (2007) Encyclopedia of evolution, New York: Facts on File.

2 Darwin, C. (1874 [1871]) The descent of man, and selection in relation to sex, 2 ed., London: John Murray [accessed on 17 February 2019].

3 Owen-Smith, N. (1993) “Comparative mortality rates of male and female kudus: The costs of sexual size dimorphism”, Journal of Animal Ecology, 62, pp. 428-440.

Promislow, D. E. (1992) “Costs of sexual selection in natural populations of mammals”, Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 247, pp. 203-210.

Promislow, D. E.; Montgomerie, R. & Martin, T. E. (1992) “Mortality costs of sexual dimorphism in birds”, Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 250, pp. 143-150.

4 Clinton, W. & Le Boeuf, B. (1993) “Sexual selection’s effects on male life history and the pattern of male mortality”,Ecology, 74, pp. 1884-1892.

5 Clutton-Brock, T. H. & Parker, G. A. (1995) “Sexual coercion in animal societies”, Animal Behaviour, 49, pp. 1345-1365.

Ditchkoff, S. S.; Welch, E. R., Jr.; Lochmiller, R. L.; Masters, R. E. & Starry, W. R. (2001) “Age-specific causes of mortality among male white-tailed deer support mate-competition theory”, The Journal of Wildlife Management, 65,pp. 552-559.

Leslie, D. M., Jr. & Jenkins, K. J. (1985) “Rutting mortality among male roosevelt elk”, Journal of Mammalogy, 66, pp.163-164.

6 Trail, P. (1987) “Predation and antipredator behavior at Guianan Cock-of-the-Rock leks”, The Auk, 104, pp. 496-507.

Boyko, A. R.; Gibson, R. M.; Lucas, J. R. (2004) “How predation risk affects the temporal dynamics of avian leks: Greater sage grouse versus golden eagles”, The American Naturalist, 163, pp. 154-165.

7 Huhta, E.; Rytkönen, S. & Solonen, T. (2003) “Plumage brightness of prey increases predation risk: An amongspecies comparison”, Ecology, 84, pp. 1793-1799.

*Nota sobre termo: “Acasalamento Lek” é uma expressão utilizada para descrever o agrupamento de animais machos em exibições competitivas para atrair fêmeas visitantes que estão a procura de possíveis parceiros para a cópula.

Pascual, J.; Senar, J. C. & Domènech, J. (2014) “Plumage brightness, vigilance, escape potential, and predation riskin male and female Eurasian Siskins (Spinus spinus)”, The Auk, 131, pp. 61-72 [acessado em 31 de janeiro de 2019].