Como avaliar quais problemas merecem prioridade?

Como avaliar quais problemas merecem prioridade?

21 Abr 2026

Frequentemente, defensores dos animais são repreendidos por se dedicarem à causa animal em vez de se dedicarem a causas humanas. Normalmente, a resposta dada por defensores dos animais é a de que cada pessoa está justificada a escolher a se dedicar ao problema que bem entender, pois todos os problemas são igualmente importantes.

Esse debate ilustra a predominância de duas ideias. De um lado, a ideia de que humanos deveriam receber prioridade; de outro, a ideia de que todos os problemas são igualmente importantes. E, se ambas as ideias estiverem erradas? E, se alguns problemas forem mais importantes do que outros, mas isso não necessariamente coincidir com os problemas que afetam humanos?

Para responder a essa questão, temos de investigar como podemos avaliar quais problemas deveriam ser prioritários. Neste texto, veremos primeiramente alguns critérios para avaliar a prioridade para, em seguida, com base em tais critérios, investigar quais problemas do mundo deveriam atualmente receber prioridade.

Critérios de prioridade imparciais

Um critério de prioridade precisa ser imparcial. Isto é, não pode favorecer ou desfavorecer tendenciosamente este ou aquele grupo de indivíduos. Sendo assim, os critérios de prioridade listados a seguir estabelecem condições para que um problema receba prioridade, mas qualquer problema pode vir a merecer prioridade, desde que cumpra essas condições.

A seguir veremos vários critérios e, se cada um deles é importante para determinar a prioridade de um problema1, então, cada critério sozinho é insuficiente para decidir questões de prioridade: essa decisão precisa ser feita com base no conjunto de critérios.

Gravidade da situação

O primeiro desses critérios é a gravidade da situação: tudo o mais sendo igual, quanto mais grave um problema, mais fortes as razões para priorizá-lo. Somente esse critério já é suficiente para colocar um ponto de interrogação na ideia de que todos os problemas são igualmente importantes, uma vez que as diferentes situações possuem graus diferentes de gravidade.

Mas, como medir a gravidade de uma situação? Há diferentes maneiras. Entretanto, dois critérios são amplamente utilizados: a quantidade de vítimas e o nível de dano por vítima (por exemplo, o quanto cada vítima sofre, ou o quão prematuras são suas mortes). Em resumo, quanto mais vítimas, mais grave é a situação; quanto maior o dano por vítima, mais grave é a situação.

Quando os critérios de gravidade conflitam

Por vezes, comparando-se duas situações, aquela que tem mais vítimas também é aquela na qual as vítimas se encontram em pior condição. Nessas situações é fácil ver qual delas é mais grave. Entretanto, há outros casos nos quais, comparando-se duas situações, uma delas tem mais vítimas, mas é a outra na qual as vítimas estão em pior condição. Em casos assim, como proceder para determinar qual situação é mais grave?

Novamente, aqui há diferentes métodos2. Veremos alguns a seguir.

Dano agregado. Uma possibilidade seria agregar (somar) o dano de cada vítima, para se obter o saldo total de dano agregado. Entretanto, uma objeção a esse método é que ele poderia prescrever priorizar um problema que tivesse uma quantidade enorme de vítimas, mas que cada uma estivesse com um nível de dano individual bastante pequeno.

Linhas de corte: Outra possibilidade é estabelecer que ambos os critérios são independentes e, dependendo da situação, poderia pesar mais um ou mais o outro. Nesse sentido, uma possibilidade seria estabelecer linhas de corte (por exemplo, se o dano de cada vítima da minoria for “x” vezes maior do que o de cada vítima da maioria, pesa mais o critério do dano individual; do contrário pesa mais a quantidade de vítimas).

Peso variável com retornos decrescentes. Outra possibilidade seria não estabelecer linhas de corte, e o peso de cada critério mudaria de forma contínua e gradual à medida que o critério fosse sendo “satisfeito”. Por exemplo, à medida que a quantidade de vítimas vai diminuindo, o critério da quantidade de vítimas vai perdendo peso; à medida que a situação de cada vítima vai melhorando, o critério da gravidade da situação individual vai perdendo peso.

Existem vários outros métodos, e voltaremos a falar disso no final do texto.

Qual a situação mais grave possível de ser influenciada?

É importante investigar não apenas quais situações são mais graves, mas quais situações possíveis de ser influenciadas são as mais graves. Para isso ficar mais claro, considere o exemplo a seguir.

Imaginemos que o problema A possui 900 mil vítimas, e que o problema B possui 500 mil vítimas, e que todas as vítimas dos problemas A e B estão em situações igualmente ruins. A partir dos critérios que vimos antes sobre gravidade da situação, devemos priorizar A. Entretanto, suponha que o máximo que podemos fazer em relação ao problema A é ajudar 400 mil vítimas (infelizmente, não há nada que possa ser feito pelas outras 500 mil) e que, por outro lado, é possível ajudar 450 mil das 500 mil vítimas do problema B.

Em resumo, apesar de o problema A envolver uma situação pior do que a do problema B, comparando-se ambos, é o problema B que apresenta a pior situação possível de ser influenciada.

Esse é, então, outro fator importante para a prioridade: precisamos saber quais são as piores situações possíveis de influenciarmos (não adianta saber quais são as piores, se nada podemos fazer para melhorá-las). Entretanto, é importante observar que esse fator (o tamanho da tratabilidade do problema) é variável ao longo do tempo. Por exemplo, há situações que atualmente não conseguimos influenciar, mas que podemos vir a conseguir influenciar no futuro (e isso depende, em parte, do quanto investigamos como influenciá-la).

Grau de negligencia

Outro fator importante para decidir a prioridade é o quanto cada problema é negligenciado. Tudo o mais sendo igual, quanto mais negligenciado for um problema, mais fortes as razões para o priorizarmos. Como explicado a seguir, isso é assim por pelo menos duas razões.

Distribuição de esforços

Voltemos no exemplo do item anterior. Imaginemos que avaliamos os problemas A e B e decidimos priorizar o problema B, pois é o que apresenta a pior situação que poderíamos influenciar. Entretanto, suponha que outro grupo de pessoas fez o mesmo raciocínio e também decidiu priorizar o problema B, investindo a mesma quantia de recursos que nós também investimos no problema B. Porém, se soubéssemos que esse outro grupo de pessoas já faria isso, poderíamos investir nossos recursos em tentar resolver o problema A, e isso aumentaria a probabilidade de ambos os problemas serem resolvidos. Em resumo: quanto mais pessoas já investem em tentar solucionar um problema, maiores as chances de ele ser resolvido sem a nossa ajuda. Essa é uma das razões para priorizar os problemas mais negligenciados.

Retornos marginais decrescentes

Quanto mais negligenciado é um problema, maior o impacto positivo de se ter uma pessoa a mais tentando resolver esse problema. Isso é assim porque, quando um problema é pouco explorado,  ainda há várias oportunidades fáceis de se fazer uma diferença significativa que ainda não foram tentadas (digamos, há “frutos disponíveis nos galhos mais baixos”). A medida que mais e mais pessoas vão aderindo, essas oportunidades vão sendo já aproveitadas, e se torna cada pessoa adicional tende a produzir menores quantidades de benefício. Essa é outra razão para priorizar os problemas mais negligenciados.

Assim, ao decidir quais problemas priorizar, é importante investigar não apenas o que nós poderíamos fazer, mas também o que provavelmente outras pessoas farão em relação a esses problemas. Entretanto, o que nós poderíamos fazer é crucial, e falaremos disso no item a seguir.

O tamanho do benefício que poderíamos causar

Outro fator central para avaliar a prioridade de um problema é a quantidade de benefício que poderíamos produzir investindo nesse ou naquele problema3. Considere, por exemplo, o caso a seguir.

Imagine que o problema C tem 100 vítimas com sofrimento de −50 cada, e o problema D tem 90 vítimas com sofrimento de −40 cada. Ou seja, o problema C é mais grave (por ter mais vítimas e as vítimas estarem em uma situação pior). Suponha também que ambos os problemas são igualmente negligenciados e é possível ajudar todas as vítimas de um ou de outro, mas que necessariamente temos de escolher, ou o problema C, ou o problema D.

A partir dos critérios que vimos até agora, parece que devemos priorizar o problema C. Contudo, imagine que, com uma mesma quantidade de recursos, podemos: ou passar todas as vítimas de C de −50 para −49 (um alívio muito leve), ou passar todas as vítimas de D de −40 para −10 (um alívio considerável). Assim, priorizando D causaríamos um bem maior com a mesma quantidade de recursos.

Ao avaliar a quantidade de benefício é crucial estimar os efeitos de longo prazo

Comparando-se duas estratégias, é possível que uma cause mais benefícios inicialmente, mas que, levando-se em conta os efeitos de longo prazo, seja a outra que causará um benefício total maior. Também é possível que uma estratégia cause grandes benefícios em curto prazo mas tenha efeitos negativos em longo prazo, podendo até mesmo ter um saldo total negativo.

Além disso, relacionado a esse ponto está a importância de se observar se determinada estratégia ataca a causa de um problema ou se apenas ameniza seus sintomas.

Por que é enganoso se basear na porcentagem

Ao avaliarmos a quantidade de benefício que poderíamos produzir, é importante se basear na quantidade de vítimas que seriam ajudadas e no benefício por vítima, e não na porcentagem do problema que seria possível resolver. Ambas as coisas podem não coincidir. Para isso ficar mais claro, considere o exemplo a seguir.

Suponha que, com um mesmo recurso podemos, ou ajudar 90% dos animais do problema E, ou ajudar em igual medida 0,1% dos animais do problema F (que estão todos em uma situação igualmente ruim à dos animais do problema E). Se nos guiarmos pela porcentagem, podemos pensar que, ao escolher ajudar 90%., estaremos ajudando mais vítimas Mas, suponhamos que o problema E tenha um trilhão de animais, e o problema F tenha um quatrilhão. O ponto é: 90% de um trilhão são 900 bilhões, enquanto 0,1% de um quatrilhão é um trilhão. Isto é, resolver 0,1% do problema F é ajudar 100 bilhões de animais a mais, com o mesmo recurso.

O tamanho do benefício é sempre o fator mais importante?

Diante do que foi dito acima, alguém poderia pensar que, então, o tamanho do benefício que poderíamos causar é sempre o fator mais importante. Algumas pessoas poderiam, inclusive, pensar que é tudo o que importa. Entretanto, há um contraexemplo que sugere que, em determinadas situações, há outro fator mais importante do que a quantidade de benefício.

Voltemos em um exemplo que demos anteriormente:

·⠀Problema C: 100 vítimas com −50 cada

·⠀Problema D: 90 vítimas com −40 cada

Decisão:

·⠀Ou passar as 100 vítimas de C de −50 para −49 (benefício total = 100; 1 por vítima)

·⠀Ou passar as 90 vítimas de D de −40 para −10 (benefício total = 2700, 30 por vítima)

Nesse caso, parece melhor a segunda opção, pois tanto o benefício por vítima quanto o benefício total são maiores. Entretanto, suponhamos que, no exemplo acima, a decisão fosse entre:

·⠀Ou passar as 100 vítimas de C de −50 para −30 (benefício total = 2.000, 20 por vítima)

·⠀Ou passar as 90 vítimas de D de −40 para −10 (benefício total = 2.700, 30 por vítima)

Nesse caso, várias pessoas diriam que devemos escolher a primeira opção (pois o benefício vai para as vítimas na pior situação e beneficia um número maior de vítimas), mesmo que na segunda opção produzamos um benefício maior (para cada vítima e na soma total).

Como saber então quando deve pesar mais o tamanho do benefício e quando deve pesar mais a gravidade da situação? No próximo item falaremos sobre como pesar os distintos critérios.

Como pesar os diferentes critérios?

Vimos que os vários critérios para avaliar prioridade podem conflitar uns com os outros. No exemplo anterior vimos que a quantidade de benefício pode conflitar com a gravidade da situação. Mas, na verdade, qualquer critério pode conflitar com qualquer critério. Os diferentes problemas “pontuam” de forma diferente em cada um dos critérios que abordamos. Sendo assim, uma questão importante é saber como poderíamos fazer uma avaliação geral dos distintos problemas, levando em conta todos os critérios. Para isso, é importante saber se todos os critérios devem ter o mesmo peso, ou se alguns deveriam pesar mais do que outros, e se esse peso deve ser fixo ou variável. A seguir estão algumas possibilidades.

(1) Somatória total. Estabelecer que todos os fatores têm o mesmo peso, e fazer uma somatória geral de como cada problema se sai em cada um dos fatores.

(2) Trunfos. Construir uma hierarquia na qual um aspecto é um trunfo sobre os que vêm depois. Esse trunfo pode ser absoluto (isto é, nenhum aumento nos outros fatores pode fazer a balança pender, se implicar uma diminuição no fator trunfo) ou até certo ponto (dependendo do quanto se ganhe em um ou mais aspectos abaixo na hierarquia e do quão pouco se perca no aspecto acima na hierarquia, o trunfo pode se inverter).

(3) Relação contínua. Não há trunfos, e cada aspecto têm, ou peso fixo (igual ou diferente), ou peso variável, no cálculo total. Um exemplo de abordagem desse tipo onde cada aspecto tem peso variável é a abordagem com retornos decrescentes, onde o peso de cada aspecto diminui proporcionalmente à medida que é preenchido. Um exemplo nesse sentido seria buscar maximizar os benefícios, mas estabelecer que uma unidade de benefício tem mais valor quanto mais grave for o problema ao qual seria direcionado esse benefício.

(4) Combinar trunfos e relação contínua. Usar trunfos (absolutos ou até certo ponto) até uma linha de corte e a partir daí utilizar uma relação contínua (de peso fixo ou variável).

Como os problemas cujas vítimas são animais não humanos se saem nesses critérios?

A quantidade vítimas não humanas é vastamente maior do que a quantidade de vítimas humanas. Como veremos no próximo item, se levarmos em conta apenas os danos que os humanos causam aos animais (e excluirmos as mortes e sofrimento naturalmente causados), por dia já é morta uma quantidade de animais não humanos maior do que a população humana. Se contarmos os animais que vivem na natureza e são vítimas de processos naturais, há quintilhões deles em um dado momento4. Em ambos os casos, normalmente nascem para ter vidas repletas de sofrimento extremo e uma morte bastante prematura. Em resumo, de acordo com o critério da gravidade da situação, seja por conta do número de vítimas, seja por conta do dano por vítima, a situação dos animais não humanos deveria ser uma de nossas prioridades.

Além disso, por conta do especismo5, os problemas que afetam animais não humanos são muito mais negligenciados do que os problemas que afetam humanos. As causas que lidam com problemas que afetam humanos contam com muito mais recursos e com um número muito maior de pessoas já envolvidas ou fazendo doações. Por exemplo, de todas as doações feitas nos Estados Unidos, 97% do montante arrecadado vai para causas humanas6. Os outros 3% vão para causas ambientalistas e de defesa animal (e não se sabe o quanto desses 3% vai para a causa animal; sabe-se apenas que a popularidade da causa animal é muito menor do que a da causa ambientalista). Mesmo entre as pessoas que costumam doar para a causa animal, em média mais de dois terços de suas doações vão para causas humanas7. Portanto, o critério do grau de negligência também aponta para priorizarmos a situação dos animais não humanos.

Por fim, poder-se-ia pensar que os problemas que afetam os animais não humanos não são tratáveis, isto é, que não há nada que se possa fazer. Mas, isso não é verdade. Seja quanto aos animais explorados, seja quanto aos que vivem na natureza, há muitas coisas possíveis de serem feitas (e várias que já vem sendo feitas) para mudar sua situação. E, muitas vezes, com uma mesma quantia de recursos, é possível beneficiar uma quantidade maior deles do que seriam beneficiados seres humanos. O motivo pelo qual os animais não recebem ajuda não é porque os problemas que os afetam são intratáveis e ninguém sabe o que fazer, mas principalmente por conta do especismo. Portanto, os critérios da tratabilidade e da quantidade de benefícios também sugerem que os problemas que afetam animais não humanos deveriam ser uma prioridade.

Sendo assim, não são as pessoas que defendem os animais que deveriam tentar justificar por que o fazem: são as pessoas que não priorizam defender os animais que precisam explicar por que não aplicam de modo não tendencioso os critérios de prioridade.

Os problemas mais graves são os mais negligenciados também na causa animal

Vimos que, apesar de a quantidade de vítimas não humanas ser muito maior do que a quantidade de vítimas humanas, por conta do especismo os problemas que afetam animais não humanos são altamente negligenciados. Entretanto, o mesmo problema acontece na causa animal: os problemas que afetam as maiores quantidades de animais são também altamente negligenciados por ativistas da causa animal.

Por exemplo, de todos os vertebrados terrestres explorados nos EUA8, mais de 99,7% são mortos na pecuária; 0,2% são mortos em laboratórios; 0,07% são mortos na indústria de vestimentas e 0,03% são mortos em abrigos. Contudo, a quantidade de doações é inversamente proporcional à quantidade de animais afetados. De todas as doações feitas para a causa animal nos EUA9, 66% vão para abrigos; 32% vão para grupos com atividades mistas; 0,7% vão para organizações focadas em animais em laboratórios e apenas 0,8 % vai para organizações focadas em animais na pecuária.

O mesmo tipo de viés afeta também ativistas que se preocupam com animais explorados para consumo. A vasta maioria tende a focar em mamíferos e aves, e isso é deixar de fora a esmagadora maioria dos animais usados para consumo. Contudo, considere a tabela a seguir:

Tipo de animal explorado Animais mortos mundialmente por ano
Mamíferos e aves Em torno de 80 bilhões10
Peixes criados em fábricas Entre 51 e 167 bilhões11
Peixes capturados diretamente no mar Entre 787 bilhões e 2,3 trilhões12
Animais aquáticos utilizados como ração para os peixes criados para consumo Entre 462 bilhões e 1,1 trilhão13
Crustáceos criados em fábricas Entre 255 e 604 bilhões14
Bichos-da-seda para produção de seda Entre 420 bilhões e 1 trilhão15
Insetos mortos para consumo Entre 2 e 3,2 trilhões16
Cochonilhas na produção do corante carmim Entre 4,6 e 21 trilhões17
Camarões pescados diretamente no mar Em torno de 25 trilhões18

A soma desses números sugere que são mortos algo entre 34 e 54 trilhões de animais anualmente em nível global. Isso significa que os 80 bilhões, normalmente mencionados pelos ativistas, representam apenas algo entre 0,1 % e 0,2% dos animais mortos na exploração.

O mesmo ocorre em relação à negligência da situação dos animais selvagens em decorrência de processos naturais. Ao contrário do que se poderia pensar inicialmente, seus números são esmagadoramente maiores do que o de animais explorados. A vasta maioria desses animais têm vidas nas quais predomina largamente o sofrimento. Para termos uma ideia da diferença, considere que a população total de animais sencientes na natureza em um dado momento estaria, de acordo com certas estimativas, entre 1 a 10 quintilhões de indivíduos19. Compare com a população mundial em um dado momento de animais criados como estoque para serem explorados: vertebrados terrestres: 24 bilhões20; peixes: 180 bilhões21; camarões: 230 bilhões22, formando um total de 434 bilhões. Esses números são tão enormes que é difícil visualizar a diferença. Se fizermos uma analogia com o período de um ano, os animais criados para serem explorados representariam no máximo 14 segundos do ano. Todo o restante do ano (364 dias, 23 horas, 59 minutos e 46 segundos) seriam os animais na natureza.

Há vários motivos para todas essas negligências23: o fato de os animais que são a maioria das vítimas serem muito diferentes e não despertarem tanta empatia; a crença de que danos que decorrem de processos naturais são menos importantes; a dificuldade em perceber a diferença de tamanho entre quantidades muito grandes e assim por diante. Seja lá quais forem os motivos, nenhum deles parece justificá-las.

E o futuro?

Os critérios que vimos também nos permitem concluir que também deveriam ser uma prioridade as questões éticas relacionadas ao futuro em longo prazo, em especial os riscos de sofrimento futuro24, também conhecidos como riscos-s. Estes são os riscos de que novas tecnologias venham a causar sofrimento em escala gigantesca, para muito além de tudo o que se conhece até agora (similarmente ao que ocorreu com a criação da pecuária industrial, que multiplicou o sofrimento dali para frente, só que em escala muito maior). Esse é um tema que afetará uma quantidade gigantesca de seres sencientes (pois diz respeito aos seres que serão afetados daqui para frente durante a história), e muito poucas pessoas estão se preocupando com isso. Além disso, várias coisas poderiam ser feitas para prevenir esses danos. Portanto, é outro tema que cumpre muito bem os critérios de prioridade.

Isso ilustra bem a utilidade prática de se pensar em critérios de prioridade. Primeiro, pensamos abstratamente sobre quais critérios poderíamos utilizar para avaliar quais problemas merecem prioridade. Em seguida, quando aplicamos esses critérios ao mundo real, vemos que temos de seriamente repensar nossas prioridades.


Notas

1 Para vários textos e links sobre esse tema, ver Šimčikas, S. (2019) “Effective animal advocacy resources”, Rethink Priorities, October, 24 2019 [acessado em 2 de abril de 2026]. Ver também Cunha, L. C. (2025a) Um ativismo eficiente: critérios para escolher quais problemas priorizar e quais estratégias adotar, vol. 1, Florianópolis: Senciência e Ética [acessado em 9 de abril de 2026].

2 Sobre isso, ver Mason, E. (2023 [2006]) “Value pluralism”, in Zalta, E. N. & Nodelman, U. (eds.) The Stanford encyclopedia of philosophy, Summer 2023 ed., Stanford: Stanford University [acessado em 6 de abril de 2026].

3 Sobre isso, ver Dickens, M. (2016) “Evaluation frameworks (or: When importance / neglectedness / tractability doesn’t apply)”, Philosophical Multicore, Jun 10 [acessado em 4 de abril de 2026].

4 Tomasik, B. (2019 [2009]) “How many wild animals are there?”, Essays on Reducing Suffering, 2019 Aug 07 [acessado em 8 de abril de 2026].

5 Sobre especismo, ver Horta, O. (2022 [2010]) “O que é o especismo?”, Ethic@, 21, pp. 162-193 [acessado em 12 de abril de 2026].

6 Kateman, B. (2021) “The environment and animals deserve more than just 3% of our charitable giving”, Forbes, Nov 23 [acessado em 9 de abril de 2026].

7 Anderson, J. (2018) “Donation preferences and attitudes among people who donate to animal causes”, Faunalytics, October, p. 9 [acessado em 8 de abril de 2026].

8 Animal Charity Evaluators (2024) “Why farmed animals?”, Animal Charity Evaluators [acessado em 7 de abril de 2026]

9 Ibid.

10 Our World in Data (2018) “Yearly number of animals slaughtered for meat, World, 1961 to 2018”, Our World in Data [acessado em 15 de abril de 2026]. Sanders, B. (2025) “Global animal slaughter statistics & charts”, Faunalytics, April 23 [acessado em 9 de abril de 2026]

11 fishcount.org.uk (2019a) “Fishcount estimates of numbers of individuals killed in (FAO) reported fishery production”, fishcount.org.uk [acessado em 7 de abril de 2026]

12 Ibid.

13 Ibid.

14 Ibid.

15 Rowe, A. (2021) “Silk production: Global scale and animal welfare issues”, Rethink Priorities, April, 19 2021 [acessado em 5 de abril de 2026]

16 Rowe, A. (2020a) “Insects raised for food and feed — global scale, practices, and policy”, Rethink Priorities, June, 29 2020 [acessado em 8 de abril de 2026]

17 Rowe, A. (2020b) “Global cochineal production: Scale, welfare concerns, and potential interventions”, Effective Altruism Forum, Feb 11 [acessado em 7 de abril de 2026]

18 Waldhorn, D. & Autric, E. (2023) “Shrimp: The animals most commonly used and killed for food production”, OSF Preprints, September 8 [acessado em 11 de abril de 2026].

19 National Museum of Natural History & Smithsonian Institution (ca. 2008) “Numbers of insects (species and individuals)”, Encyclopedia Smithsonian [acessado em 14 de abril de 2026]. Tomasik, B. (2019 [2009]) “How many animals are there?, op. cit.

20 Tomasik, B. (2019 [2009]) “How many animals are there?”, op. cit.

21 fishcount.org.uk (2019b) “Numbers of farmed fishes slaughtered each year”, fishcount.org.uk [acessado em 11 de abril de 2026].

22 Waldhorn, D. & Autric, E. (2023) “Shrimp: The animals most commonly used and killed for food production”, op. cit.

23 Sobre isso, ver Cunha, L. C. (2025b) “Vieses e sua influência: como vieses influenciam nossas decisões que afetam os animais”, vol. 1, Florianópolis: Senciência e Ética [acessado em 3 de abril de 2026].

24 Sobre riscos-s, ver Baumann, T. (2017) “S-risks: An introduction”, Center for Reducing Suffering [acessado em 4 de abril de 2026]; (2022) Avoiding the worst: How to prevent a moral catastrophe, Colville: Center for Reducing Suffering [acessado em 1 abril 2026]. Ver também Cunha, L. C. (2025c) A ética e o futuro: o que são riscos de sofrimento futuro e como preveni-los, vol. 1, Florianópolis: Senciência e Ética [acessado em 13 de abril de 2026].

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