Repensando nossa relação com os insetos

Repensando nossa relação com os insetos

18 Ago 2025

O Dia Mundial Pelo Fim do Especismo, conhecido como WoDES (em inglês, uma sigla para World Day for the End of Speciesism) é um evento mundial anual que ocorre na última semana de agosto. O seu objetivo é aumentar a conscientização sobre o especismo.

Organizações de todo o mundo participam do WoDES, cada qual contribuindo com sua abordagem particular na luta contra o especismo. Neste ano a Ética Animal decidiu focar em discutir a exploração sobre insetos e alguns tópicos relacionados.

Você já parou para pensar quantos insetos existem no mundo? Será que insetos são sencientes? Será que os tratamos de modo justo? Neste texto exploraremos essas e outras questões relacionadas.

Os insetos são sencientes?

O que é senciência?

Senciência é a capacidade de ter experiências, incluindo prazer, dor e outras sensações. A senciência é o que torna um ser alguém, e é também o que o torna capaz de ser prejudicado e beneficiado.

As evidências científicas

Como veremos a seguir, cada vez mais estudos corroboram a senciência em insetos. Embora muitas espécies ainda não tenham sido estudadas (existem milhões delas), temos evidências importantes sobre insetos de várias espécies. Os cientistas generalizam essas descobertas para espécies proximamente relacionadas. Esse já é o procedimento padrão em relação à senciência de outros animais, incluindo de vertebrados e de outros invertebrados, como crustáceos decápodes1. Isto é, se animais de certas espécies são sencientes, então há boas razões para pelo menos darmos o benefício da dúvida para animais de espécies proximamente relacionadas na árvore evolutiva.

Aqui estão as principais evidências encontradas em relação à senciência de insetos:

  • Cérebros organizados: insetos possuem sistemas nervosos centralizados com cérebros distintos, que possuem uma região chamada protocerebrum com estruturas especiais (os corpos de cogumelo) que contêm entre 100 mil e 1 milhão de neurônios2
  • Comportamento inteligente: insetos tomam decisões, aprendem com experiências anteriores e adaptam seu comportamento quando as situações mudam3
  • Atividade elétrica: seus cérebros mostram atividade elétrica similar à de outros animais que sabemos que são sencientes4
  • Conexões neurais complexas: o mapa das conexões no cérebro dos insetos é parecido com o de primatas em aspectos importantes5
  • Processamento de informações: os corpos de cogumelo recebem e integram informações de diferentes sentidos, permitindo que os insetos aprendam e lembrem6

Pergunta para reflexão: se os insetos mostram sinais de que são sencientes, como isso deveria mudar as nossas decisões que os afetam?

A exploração sobre insetos

O uso de insetos tem crescido muito nos últimos anos, para diversas finalidades:

  • Corantes: cochonilhas são mortas para fazer o corante E-120 (vermelho carmim)
  • Tecidos: bichos-da-seda são mortos para produzir seda
  • Mel: abelhas são exploradas para a fabricação de mel
  • Consumo: insetos também são consumidos diretamente (por vezes como farinhas ou hambúrgueres)
  • Ração animal: insetos são usados para fazer ração para outros animais que também são explorados pelos humanos

Os números são impressionantes

Vejamos alguns exemplos de dados:

  • Cochonilhas para fabricação de corante: 4,6 a 21 trilhões mortas por ano7
  • Insetos para fabricação de comida: 2 a 3,2 trilhões mortos por ano8
  • Bichos-da-seda: 420 bilhões a 1 trilhão mortos por ano9

Perguntas para reflexão: Se esses números são muito maiores do que, por exemplo, a soma da quantidade de mamíferos e aves explorados, por que quase ninguém fala disso, nem mesmo os ativistas da causa animal? É por que não sabem? Por que não se importam? Por alguma razão estratégica? Quais seriam as causas dessa negligência?

Como os insetos são prejudicados quando são explorados

Condições vida ruins

Os insetos explorados vivem em espaços ainda menores (proporcionalmente ao seu tamanho) do que outros animais explorados10. Imagine viver em um espaço do tamanho de um armário durante sua vida toda.

Métodos dolorosos de matar

Antes de serem mortos, os insetos passam por processos que provavelmente causam sofrimento11:

  • Ficam sem comida por 12 a 24 horas
  • São colocados em ambientes com menos oxigênio
  • São resfriados a temperaturas próximas ao congelamento enquanto ainda estão vivos
  • São mortos por congelamento, água fervente, micro-ondas, em fornos ou triturados

Morte

Independentemente do sofrimento, a exploração sobre insetos os prejudica porque os mata, privando-os das experiências positivas que poderiam ter se continuassem vivos12.

Questão importante: Se você fosse um inseto, como se sentiria passando por esses processos? Acharia justo passar por esse sofrimento e perder a vida para que outras pessoas pudessem desfrutar de alguns minutos de prazer? Faria alguma diferença moralmente relevante o fato de que você seria pequeno?

Por que devemos nos opor à exploração de insetos

Razão 1: ela prejudica uma quantidade enorme de indivíduos

Se os insetos são capazes de sentir, então o sofrimento e as mortes de trilhões deles é um problema enorme. O número de vítimas é muito maior do que em muitas outras formas de exploração animal.

Razão 2: causa muitos danos

Os seres humanos poderiam escolher alimentos e tecidos que não provocam a exploração de insetos. Isso mostra que a exploração sobre insetos é uma prática arbitrária, pois desfavorece aqueles que teriam o prejuízo maior13.

Razão 3: ela viola a imparcialidade

Imagine que você não soubesse se nasceria como humano ou como inseto. Você aprovaria um sistema onde insetos são explorados? Provavelmente não, já que existe a possibilidade de você ser um deles. Isso mostra que quem defende a exploração o faz apenas porque sabe que não será sua vítima. Se é assim, então essa prática não passa no teste da imparcialidade14.

Respondendo à algumas objeções comuns

“Insetos sentem pouca dor”

A exploração de insetos é por vezes defendida alegando-se que animais que possuem cérebros menos complexos são pouco capazes de sofrer.

Primeira resposta: Mesmo que sentissem pouca dor, ainda seriam altamente prejudicados pela sua exploração, pois estariam sofrendo e perdendo suas vidas.

Segunda resposta: Na verdade, é possível que insetos sintam de modo bastante intenso. A capacidade de sentir dor prevaleceu ao longo da história evolutiva porque é um traço que motiva seus portadores a evitar perigos15. Animais com cérebros maiores têm outras formas de motivação (como o raciocínio por exemplo). Mas animais com cérebros menores dependem mais da intensidade da dor e do prazer para sobreviver16. A pressão evolutiva pode, então, fazer com que na verdade sejam animais capazes de sentir de modo muito intenso.

Como observou o psicólogo Richard D. Ryder: “as experiências dos insetos podem ser mais simples que as nossas, mas serão menos intensas? Talvez a dor primitiva que uma lagarta sente ao ser esmagada seja maior do que nossos sofrimentos mais sofisticados17.”

“A morte não prejudica muito os insetos”

Algumas pessoas argumentam que prazeres intelectuais são mais valiosos18 e que, como insetos alegadamente não são capazes desse tipo de prazer, a morte não os prejudica muito.

Resposta:

Mesmo que tivesse sido demonstrado que prazeres intelectuais são mais valiosos (e, diga-se de passagem, isso também é questionável), isso não implica que quem é incapaz de prazeres intelectuais é pouco prejudicado com a morte. O que teria de ser mostrado para fundamentar essa conclusão não é que prazeres intelectuais são mais valiosos, e sim, que prazeres não intelectuais quase não têm valor.

Mas quando pensamos em nossa própria vida, percebemos que prazeres simples (estar perto de quem gostamos, comer, se divertir ou relaxar) são muito importantes para nós. Assim, a morte ainda pode gravemente prejudicar alguém por impedi-lo de experimentar esses prazeres, mesmo que seja incapaz de prazeres intelectuais. Isso já é amplamente aceito no caso de humanos que, por conta de condições congênitas, acidente ou doença, não possuem as capacidades cognitivas típicas dos outros humanos.

“E se insetos contassem menos?”

Mesmo que déssemos menos peso moral aos insetos, isso não justificaria explorá-los. Por quê?

Primeiro: Dar menos peso a alguém não implica que necessariamente está justificado explorá-lo. Poderia haver razões para, mesmo que alguém contasse menos, protegê-lo da exploração.

Segundo: O número de insetos explorados é tão gigantesco que mesmo se cada um contasse muito menos, ainda deveríamos dar uma grande importância à sua situação19.

Exemplo: Se cada humano contasse muito mais vezes do que cada inseto, ainda assim deveríamos dar uma grande importância à situação dos insetos porque a quantidade de insetos explorados é muito superior a população humana.

Observação: Isso não mostra que há justificativa para dar menos peso aos insetos. Mostra apenas que, mesmo que houvesse, essa ainda seria uma questão muito importante. Agora, se eles devem receber igual consideração, então a importância de protegê-los é ainda maior20.

Conclusões importantes

Se todos os seres que podem sofrer importam, então a exploração de insetos é um dos problemas mais importantes que enfrentamos, pois o número de vítimas é simplesmente gigantesco.

Questões finais:

  • Por que você acha que as pessoas geralmente não levam os insetos em consideração?
  • Quais mudanças você poderia fazer em sua vida para reduzir o sofrimento dos insetos?

Notes

1 Sobre isso, ver Birch, J.; Burn, C.; Schnell, A.; Browning, H. & Crump, A. (2021) Review of the evidence of sentience in cephalopod molluscs and decapod crustaceans, London: The London School of Economics and Political Science, pp. 8-9 [acessado em 13 de agosto de 2025].

2 Kaas, J. H. (ed.) (2016) Evolution of nervous systems, Amsterdam: Elsevier.

3 European Food Safety Authority (2005) “Opinion of the Scientific Panel on Animal Health and Welfare (AHAW) on a request from the Commission related to the aspects of the biology and welfare of animals used for experimental and other scientific purposes”, EFSA Journal, 3, 292  [acessado em 13 de agosto de 2025]. Mendl, M.; Paul, E. S. & Chittka, L. (2011) “Animal behaviour: Emotion in invertebrates, Current Biology, 21, pp. R463-R465 [acessado em 7 de agosto de 2025]. Adamo, S. A. (2016) “Do insects feel pain? A question at the intersection of animal behaviour, philosophy and robotics”, Animal Behaviour, 118, pp. 75-79.

4 Polilov, A. A. (2012) “The smallest insects evolve anucleate neurons”, Arthropod Structure & Development, 41, pp. 29-34.

5 Kaiser, M. (2015) “Neuroanatomy: Connectome connects fly and mammalian brain networks”, Current Biology, 25, pp. R416-R418 [acessado em 9 de agosto de 2025].

6 Gronenberg, W. & López-Riquelme, G. O. (2004) “Multisensory convergence in the mushroom bodies of ants and bees”, Acta Biologica Hungarica, 55, pp. 31-37. Collett, M. & Collett, T. S. (2018) “How does the insect central complex use mushroom body output for steering?”, Current Biology, 28, pp. R733-R734 [acessado em 2 de agosto de 2025]. Barron, A. B. & Klein, C. (2016) “What insects can tell us about the origins of consciousness”, Proceedings of the National Academy of Sciences, 113, pp. 4900-4908 [acessado em 13 de agosto de 2025]. Klein, C. & Barron, A. B. (2016) “Insects have the capacity for subjective experience, Animal Sentience: An Interdisciplinary Journal on Animal Feeling, 1 (9) [acessado em 13 de agosto de 2025].

7 Rowe, A. (2020) “Global cochineal production: Scale, welfare concerns, and potential interventions”, Effective Altruism Forum, Feb 11 2020 [acessado em 13 de agosto de 2025]

8 Rowe, A. (2020) “Insects raised for food and feed — global scale, practices, and policy”, Rethink Priorities [acessado em 13 de agosto de 2025].

9 Rowe, A. (2021) “Silk production: Global scale and animal welfare issues”, Rethink Priorities, June, 29 2020 [acessado em 13 de agosto de 2025].

10 Ética Animal (2021) “O uso de insetos para alimentação”, Ética Animal [acessado em 13 de agosto de 2025].

11 Ibid. International Platform of Insects for Food and Feed (2024) IPIFF guide on good hygiene practices for European Union (EU) producers of insects as food and feed, Brussels: International Platform of Insects for Food and Feed, pp. 57-78 [acessado em 1 de agosto de 2025].

12 Uma discussão detalhada sobre o dano da morte para os animais não humanos pode ser encontrada em Cunha, L. C. (2025) “Os animais e o dano da morte: uma investigação sobre o dano da morte e sua magnitude”, Senciência e ética: perguntas e respostas [acessado em 13 de agosto de 2025].

13 Para uma explicação sobre o princípio por trás desse raciocínio, ver Singer, P. (2002 [1993]) Ética prática, São Paulo: Martins Fontes, cap. 3.; Cunha, L. C. (2021) Uma breve introdução à ética animal, Curitiba: Appris, pp. 61-66.

14 Rowlands, M. (2009 [1998]) Animal rights: Moral, theory and practice, 2nd ed., New York: Palgrave Macmillan, pp. 118-175.

15 Sobre isso (mas usando como exemplo o caso dos decápodes), ver Gherardi, F. (2009) “Behavioural indicators of pain in crustacean decapods”, Annali dell´Istituto Superiore di Sanita, 45, pp. 432-438.

16 Sobre isso, ver Ética Animal (2022 [2021]) “O desenvolvimento da senciência em animais juvenis”, Ética Animal, 12 Abr 2022 [acessado em 13 de agosto de 2025].

17 Ryder, R. (2002) Painism: A modern morality, London: Open Gate, p. 64.

18 Ver, por exemplo: Mill, J. S. (2020 [1861]) O utilitarismo, São Paulo: Iluminuras, cap 2. Ver também Singer, P. (2002 [1993]) Ética prática, op. cit.

19 Sobre esse argumento, ver Vinding M. (2019) “On insects and lexicality”, Magnus Vinding, August 27 [acessado em 13 de agosto de 2025].

20 Para uma argumentação detalhada sobre a importância dessa questão, ver Cunha L. C. (2023) “A situação dos insetos: o quão importante é essa questão?”, Revista de Filosofia Aurora, 35 [acessado em 13 de agosto de 2025].