Imagine que você pudesse viajar no tempo e ver como suas decisões afetarão os seres sencientes que viverão ao longo de todo o futuro. Você se preocuparia mais com as consequências de suas escolhas? Você se importaria com esses seres tanto quanto se importa com os que vivem agora?
A maioria de nós não pensa sobre isso. Focamos no presente e, no máximo, no futuro próximo. A maneira como nossas decisões podem afetar os seres sencientes do futuro distante é uma questão amplamente negligenciada.
Neste texto, exploraremos duas ideias centrais:
·⠀Por que naturalmente ignoramos o futuro em longo prazo
·⠀Por que devemos nos importar com o futuro em longo prazo1
Vieses cognitivos são atalhos mentais que nosso cérebro cria, mas que muitas vezes nos levam a conclusões erradas2. O viés temporal é a tendência natural de, quanto mais distante um evento estiver no futuro, menos importância darmos a ele. É como se nossa mente tivesse uma lente que faz os acontecimentos parecerem menos importantes quanto mais longe estiverem no futuro.
Um exemplo para pensar
Imagine que você precise escolher uma das duas opções a seguir:
·⠀Opção A: ajudar certa quantidade de animais hoje
·⠀Opção B: ajudar igualmente o dobro de animais, mas daqui a alguns anos
Muitas pessoas escolheriam a opção A, mesmo sabendo que a opção B é objetivamente melhor. Por quê? Por causa do viés temporal: o que acontece agora parece mais real e importante.
Pense nisso: há 20 anos, o momento que você está vivendo agora era futuro distante. Os momentos futuros, por mais distantes que estiverem agora, também chegarão a acontecer de verdade, assim como este momento, que já foi futuro, está agora acontecendo.
Imaginemos que você pudesse, há 20 atrás, fazer escolhas que evitariam alguns problemas sérios que ocorrem na sua vida hoje. Faria sentido você dizer que essa decisão não era importante só porque os problemas que você evitaria estariam longe no tempo?
Claro que não! O que realmente importa não é quando algo acontece, mas o quanto esse algo é bom ou ruim.
Dois exemplos para reflexão
Exemplo 1. Se você soubesse que em 2030 poderia ocorrer uma pandemia, seria menos importante tentar prevenir agora essa pandemia só porque ela ocorreria vários anos no futuro?
Exemplo 2. Imaginemos que algumas pessoas soubessem, em 1990, o que fazer para evitar a pandemia de COVID-19. Seria justo essas pessoas não evitarem a pandemia, só porque ela ocorreria vários anos no futuro?
Será justo negligenciar ou dar menos importância aos indivíduos do futuro? Para respondermos essa questão, precisamos antes entender como avaliar se uma decisão é justa.
Tratar de forma justa todos os indivíduos afetados por nossas decisões consiste em não sermos tendenciosos a favor ou contra este ou aquele indivíduo.
Por exemplo, seria injusto dar notas diferentes a duas pessoas que fizeram a mesma prova igualmente bem, só porque uma delas é sua amiga. A amizade não deveria influenciar a nota.
Um método bastante utilizado para avaliar se uma decisão é justa é verificar se ela passa no teste da imparcialidade, que consiste em perguntar se consideraríamos a decisão em questão justa se não soubéssemos a posição que ocuparíamos entre os afetados por ela.
Aqui estão dois exemplos de indivíduos que agem injustamente e cujo comportamento não passa no teste de imparcialidade3.
Alguns argumentam que os animais não humanos devem receber menos consideração do que os humanos só o faz porque sabe que pertence ao grupo privilegiado. Se eles considerassem a possibilidade de pertencer a outra espécie, essa posição não seria mais tão razoável.
Há também aqueles que apóiam a exploração animal apenas porque sabem que, por pertencerem à espécie humana, desfrutarão dos benefícios e não sofrerão os danos dessa exploração4. Se não soubessem a espécie a qual pertencem, jamais defenderiam tais atitudes. Isso mostra que tais atitudes são injustas, pois não passam no teste da imparcialidade5.
Vejamos agora outras implicações da imparcialidade
Imparcialidade espacial significa que é injusto dar menos importância ao bem-estar de alguém só porque esse alguém vive longe de nós. A imparcialidade temporal funciona da mesma forma, mas com o tempo: é injusto dar menos importância ao bem-estar de alguém só porque esse alguém existirá no futuro (próximo ou distante)6.
Se você pode evitar que algo ruim aconteça hoje ou pode evitar que a mesma coisa ruim aconteça daqui a 50 anos, a imparcialidade temporal diz que ambas as ações têm a mesma importância.
Pense em quantos seres sencientes existirão ao longo do futuro, por milhares ou mesmo milhões de anos. Esse número é muitas vezes maior do que o número de seres sencientes que existem agora ou que existirão no futuro próximo.
Questão importante: se nossas decisões de hoje podem afetar todos os seres sencientes daqui para frente, não deveríamos pensar seriamente sobre isso?
Algumas pessoas argumentam o seguinte:
“Por que devemos nos preocupar com seres sencientes futuros? Eles nem existem ainda – são apenas possibilidades, e não, seres reais como os que existem agora!”
Pense nisso: imagine que as gerações passadas pudessem ter evitado os problemas que afetam você hoje, mas que tivessem decidido não evitá-los só porque na época você ainda não existia. Será que tal atitude foi justa?
Há duas maneiras principais pelas quais nossas decisões afetam seres sencientes futuros:
1.⠀Nossas escolhas podem decidir se certos seres sencientes chegarão a nascer, e em que condições
2.⠀Mesmo que certos seres sencientes chegarão a nascer de qualquer forma, nossas decisões podem tornar suas vidas melhores ou piores
Muito do ativismo pelos animais já é sobre a preocupação com os dois tipos de decisões acima. Por exemplo:
·⠀Veganismo: evita que mais animais nasçam para ser explorados
·⠀Programas de esterilização: evitam que animais (domesticados ou selvagens) tenham filhotes que nascerão para ter uma vida repleta de sofrimento e uma morte prematura
·⠀Leis que beneficiam os animais: se aprovadas, protegem não apenas os animais existentes agora, mas também os que nascerão no futuro
Dois preconceitos têm nos impedido de pensar seriamente sobre o impacto de nossas decisões sobre os seres sencientes futuros. Um deles é o viés temporal, que já discutimos.
O outro é o especismo: quando as pessoas pensam no futuro, geralmente só consideram humanos futuros, ignorando os outros seres sencientes, que são a esmagadora maioria.
Nosso objetivo deveria ser ter o melhor impacto na história do mundo daqui para frente (e não, somente no momento atual ou no futuro próximo). Para alcançarmos essa meta precisamos considerar igualmente todos os seres sencientes:
·⠀Independentemente de espécie
·⠀Independentemente da época em que existirão
Superar o viés temporal não é fácil. Nossa mente naturalmente se preocupa mais com o que está próximo. Mas reconhecer esse problema é o primeiro passo para fazer escolhas melhores. Agora que você sabe disso, como tomará suas decisões?
Antes de concluir, pense nestas questões:
·⠀Que tipo de mundo você gostaria de deixar para os seres sencientes que viverão depois de você?
·⠀Que tipo de mundo você gostaria de deixar para os seres sencientes que viverão depois de você?
·⠀Se você não soubesse em que época nasceria e a qual espécie pertenceria, gostaria que as pessoas rejeitassem o especismo e o viés temporal? Se sim, qual a implicação dessa conclusão, em termos de justiça?
1 Para uma obra inteiramente centrada em discutir essa questão, ver, por exemplo, Baumann, T. (2022) Avoiding the worst final: How to prevent a moral catastrophe, London: Center for Reducing Suffering [acessado em 04 de julho de 2025].
2 Sobre vieses cognitivos, ver Kahneman, D. (2012 [2011]) Rápido e devagar: duas formas de pensar, Rio de Janeiro: Editora Objetiva.
3 Para uma introdução às implicações da imparcialidade para nossas decisões que afetam seres sencientes não humanos, ver Rowlands, M. (2009 [1998]) Animal rights: Moral, theory and practice, 2nd ed., New York: Palgrave Macmillan.
4 Para uma descrição detalhada da situação dos animais explorados para consumo, ver Horta, O. (2022 [2017]) Making a stand for animals, Oxford: Routledge, pp. 49-77.
5 Para uma descrição do sofrimento dos animais selvagens, ver Ética Animal (2023 [2020]) Introdução ao sofrimento dos animais selvagens, Oakland: Ética Animal [acessado em 04 de julho de 2025]. Para uma discussão das implicações éticas dessa situação, ver Cunha, L. C. (2025) A ética e a situação dos animais selvagens: uma análise da questão dos danos naturais, Florianópolis: Senciência e Ética [acessado em 04 de julho de 2025].
6 A imparcialidade temporal é defendida em Cowen, T. & Parfit, D. (1992) “Against the social discount rate”, em Laslett, P. & Fishkin, J. S. (eds.) Justice between age groups and generations, London: Yale University Press, pp. 144-161. As implicações da mesma em relação aos riscos de sofrimento futuro são abordadas em Baumann, T. (2022) Avoiding the worst final: How to prevent a moral catastrophe, op. cit.