Animais e guerra

17 Jun 2022

Os animais não humanos têm sido parte de conflitos armados ao longo da história, e continuam a sê-lo até hoje. Alguns animais são ativamente utilizados em atividades militares, por exemplo, para carregar equipamentos como kits de primeiros socorros, munições ou explosivos, para ajudar a defender ou atacar posições militares, para detectar inimigos ou para localizar perigos. Outros são utilizados na pesquisa e desenvolvimento de tecnologia militar, armamento e no treinamento de soldados e médicos de campo. Outros são apenas vítimas incidentais de conflitos, muitas vezes deixados lutando para sobreviver no rescaldo da guerra1. Esta é outra conseqüência do especismo que podemos acrescentar a todos os danos que os animais já sofrem, tanto como resultado de sua exploração como devido a causas naturais na natureza.

O sofrimento dos animais não humanos durante os conflitos armados é freqüentemente negligenciado ou considerado irrelevante diante do sofrimento humano, tanto pelas partes em conflito como pelo público em geral. Mas a guerra também causa morte e sofrimento aos animais, às vezes em uma escala ainda maior do que a humana. Estes danos, como veremos, não estão confinados a períodos de conflito ativo, mas também podem ocorrer durante o tempo de paz, seja como conseqüência de um conflito armado anterior ou em preparação para um futuro. Levar em conta os interesses dos animais não humanos significa que devemos examinar criticamente os danos que os animais não humanos sofrem tanto como trabalhadores quanto como vítimas do uso de armas em tempos de guerra.

Animais como vítimas de guerra

Seja em gaiolas (em zoológicos, aquários, laboratórios ou fazendas), domesticados ou selvagens, os animais sofrem passivamente como vítimas de conflitos armados. Durante uma guerra, os animais mantidos em cativeiro se encontram em uma situação muito vulnerável. Eles podem ser mortos de duas maneiras diferentes: primeiro, podem ser mortos diretamente por armas. Isto pode ocorrer por meio de um ataque aéreo, um bombardeio ou diretamente pelas mãos de soldados sob o pretexto da necessidade (em que se decide que em estado de emergência não há recursos suficientes para cuidar destes animais). E segundo, eles podem ser mortos passivamente, por exemplo, pela fome após serem abandonados nas instalações em que foram mantidos, tendo seus tratadores fugido ou morrido2. Da mesma forma, aqueles mantidos como animais de estimação também dependem de seus cuidadores humanos, que podem (voluntariamente ou não) abandoná-los ou mesmo morrer na guerra, deixando os animais incapazes de sobreviver por conta própria.

Apesar de terrível, este sofrimento é ínfimo quando comparado aos danos que a guerra inflige aos animais que vivem na natureza3. A maneira mais óbvia pela qual os animais selvagens são diretamente atingidos pela guerra é através de minas, bombas, armas químicas e incêndios. Quando estes ataques não matam o animal, muitas vezes o deixa gravemente ferido ou mesmo incapacitado para a vida em um ambiente degradado pela guerra. Tudo isso causa aos animais selvagens grande sofrimento, deixando-os com ferimentos e sequelas que impossibilitam sua sobrevivência sem ajuda externa, resultando em sua morte algum tempo depois. Além disso, os animais selvagens também podem sofrer por serem parte de estratégias militares. Os animais selvagens podem se tornar sujeitos diretos ou indiretos de destruição tática militar. A destruição tática militar visa prejudicar um determinado ambiente, a fim de enfraquecer as forças inimigas, privando-as de recursos e/ou camuflagem ambiental. Por exemplo, a destruição de florestas para eliminar esconderijos também mata animais selvagens (seja diretamente, se forem mortos na destruição, ou indiretamente, caso morram de fome por ficarem sem alimento). Um exemplo notório disto foi o uso do Agente Laranja pelos Estados Unidos durante a Guerra do Vietnã. O agente laranja era um herbicida químico e desfolhante que causou danos tanto à população humana local quanto aos animais selvagens que viviam nas áreas onde esses produtos químicos foram lançados4. A maioria dos danos que a guerra inflige aos animais selvagens não vem de ferimentos causados por armas, mas sim das conseqüências que a guerra tem sobre seu meio ambiente5. Isto não significa, porém, que o dano direto é incomum: animais selvagens também podem ser um alvo direto de operações táticas de destruição, que podem ter como objetivo matar animais dos quais o inimigo depende para sobreviver, a fim de restringir seu acesso a alimentos, roupas ou outros materiais primários.

Os animais selvagens também podem sofrer com a proliferação de equipamentos de grau militar. Uma vez que um conflito armado tenha alcançado uma região, torna-se mais fácil para os civis ter acesso a equipamentos e armamentos militares que antes não estavam disponíveis. Isto pode facilmente levar os caçadores a adquirir armas mais eficazes para matar mais animais6. A guerra também pode levar a uma ampla disseminação de equipamentos militares de sonar usados para detectar ameaças submarinas, um tipo de equipamento conhecido por causar danos severos e potencial morte a golfinhos, baleias, belugas e outros cetáceos cujos biosonares ficam prejudicados7.

Os animais podem ser vítimas da guerra mesmo depois que o conflito tiver terminado. É bem conhecido que as minas e armadilhas podem permanecer ativas por anos, mesmo décadas, após o fim de um conflito, sendo comum que tanto humanos quanto animais não humanos os detonem acidentalmente e sofram mutilações dolorosas e até mesmo a morte. Embora os humanos possam ser avisados e dissuadidos de atravessar áreas onde há munições não explodidas, os animais não humanos não conseguem entender tais avisos e suas necessidades podem exigir que eles adentrem nas áreas perigosas.

Finalmente, os animais podem ser usados como alvos pelos soldados, seja para praticar seu objetivo ou para testar os efeitos de uma arma sobre corpos vivos: por exemplo, os animais são atingidos com diferentes tipos de armamento para testar a perfuração sob diferentes condições. Além disso, venenos e agentes químicos empregados na guerra também são testados em animais vivos, tanto em testes como para o estudo e desenvolvimento de tratamentos8. Treinar animais em certas tarefas para depois submetê-los a substâncias tóxicas ou radioativas a fim de testar a resistência de seus corpos diante de situações extremas é apenas um dos múltiplos exemplos de pesquisas militares em animais9. Entretanto, testar armamentos em animais não se limita a ensaios individuais de algumas dúzias de sujeitos; ao contrário, ele é realizado em uma escala muito maior. Explosivos, produtos químicos, bombas, ataques aéreos e até mesmo armas nucleares são todos testados em seres vivos para ver o quanto são mortais. Milhões de animais morreram como resultado de testes nucleares realizados no século XX por países como China, França, Estados Unidos, URSS e Reino Unido.

Animais como soldados, armas e recursos

Durante milênios, os animais fizeram parte de conflitos armados não apenas como vítimas, mas também como participantes ativos na guerra. Alguns dos usos mais comuns dos animais durante conflitos armados têm sido como meio de transporte, tanto para humanos quanto para mercadorias pesadas; para enviar mensagens e informações de um ponto a outro na frente de batalha e além; para detectar perigos ocultos, tais como minas, armadilhas e outros explosivos, assim como soldados inimigos; para espionar os inimigos, para transportar dispositivos de gravação; e, é claro, como alimento para consumo humano. Além disso, há uma grande variedade de espécies animais que têm sido destacadas como “soldados” no campo de batalha ao longo da história. Algumas delas têm sido usadas como armas. Sua parte no conflito implicou em atacar os próprios soldados inimigos, ou serem forçados a carregar explosivos que mais tarde são detonados, enquanto ainda estão presos ao corpo do animal. Um exemplo notório dessa prática foram os cães usados pelo exército americano durante a Segunda Guerra Mundial. Estes animais foram treinados para correr em direção a tanques inimigos enquanto carregavam bombas, que depois eram detonadas. Além disso, outros foram usados por médicos de campo militares. Estes animais carregavam medicamentos e kits de primeiros socorros em situações perigosas e difíceis na linha de frente ou ajudam a levar os feridos para longe do campo de batalha para serem tratados pelos médicos. Espécies tais como cavalos, cães, elefantes, camelos, mulas, bois, golfinhos, pombos, porcos ou burros (só para mencionar alguns exemplos) são muitas vezes treinados e mais tarde empregados como membros ativos do esforço de guerra. Eles sofrem não apenas com o estresse de seu destacamento no campo de batalha e de serem feridos, mas também com o duro treinamento militar que recebem antes disso. Além disso, se falharem em seu treinamento, podem até mesmo ser mortos por seus treinadores10.

Além disso, certos animais (particularmente suínos e caprinos) são freqüentemente usados para treinar médicos de campo para realizar procedimentos cirúrgicos em humanos. No entanto, para aprender a tratar as feridas, os animais devem ser feridos. Portanto, os animais são feridos deliberadamente, geralmente por tiros, mas também por armas químicas, amputações, etc., dependendo do tratamento que será testado ou praticado11.

Levar animais não humanos em consideração significa rejeitar prejudicá-los e matá-los nas guerras

As dificuldades que animais não humanos enfrentam em decorrência de conflitos armados é uma situação que tem sido amplamente negligenciada até hoje.

Embora os próprios animais raramente sejam o alvo pretendido das intervenções militares, eles sempre sofrem como vítimas colaterais. Apesar dos animais serem profundamente afetados por esses conflitos (seja por interferência em seus meios de sobrevivência ou por serem obrigados a participar diretamente das hostilidades) a questão da (in)tolerância com práticas que prejudicam os animais tem recebido pouca atenção na teoria da guerra justa. A teoria da justa guerra é uma doutrina que procura assegurar que uma guerra seja moralmente justificável, aderindo a uma série de critérios aplicáveis tanto ao jus ad bellum (o justo recurso ao combate armado) quanto ao jus in bello (conduta correta durante esse combate)12.

A este respeito, deve-se observar que as atividades militares que causam mais danos aos animais são as que provavelmente também afetam os não-combatentes humanos. Já vimos que a maior fonte, ainda que não intencional, de sofrimento animal durante conflitos armados vem dos danos indiretos causados aos animais selvagens durante a guerra. Mas o critério de discriminação na teoria da guerra justa exige que um exército evite realizar ataques que não sejam direcionados a um alvo inimigo específico ou que não possam ser limitados a esse alvo militar específico. Uma teoria de guerra justa com inclusão de animais não humanos tornaria a guerra justa mais exigente, mas se levarmos a sério os interesses dos animais, então devemos aceitar isto (também poderia ser argumentado que as mesmas ações militares passíveis de prejudicar os animais já são censuráveis devido aos danos que elas apresentam aos civis humanos, embora este seja um argumento baseado nos interesses humanos, não nos interesses dos animais). Um ataque indiscriminado infligirá danos indiretos não só aos humanos que não são uma ameaça militar, mas também aos animais não humanos. A guerra química e nuclear, o bombardeio de saturação, armadilhas, minas terrestres, etc. não podem diferenciar entre seres humanos e animais não humanos, assim como não podem discriminar entre combatentes e não combatentes13.

É claro que também é possível rejeitar a teoria da guerra justa e aceitar alguma outra visão. Exemplos disto incluem posições pacifistas que se opõem a todas as guerras como inerentemente erradas, independentemente de como são travadas. Sobre estes pontos de vista, nenhum dos danos causados aos animais aqui mencionados jamais poderia ser justificado. Outras posições, como as consequencialistas, julgam a ética da guerra não em termos de se elas são lutadas de acordo com o motivo certo e da maneira correta, como faz a teoria da guerra justa. Ao invés disso, examinam se as guerras são travadas para evitar os piores cenários. Se aceitarmos uma visão deste tipo, avaliaremos a justificativa moral das guerras de maneira diferente. Entretanto, como no caso da teoria da guerra justa, devemos também levar em conta como as guerras afetam os animais não humanos. Fazer o contrário seria discriminar os animais não-humanos, que é o especismo.


Leitura adicionais

Cochrane, A. (2018) Sentientist politics, Oxford: Oxford University Press.

DeGrazia, D. (2002) Animal rights, Oxford: Oxford University Press.

Donaldson, S. & Kymlicka, W. (2013 ) “A defense of animal citizens and sovereigns”, Law, Ethics, and Philosophy, 1, pp. 143-160 [acessado em 23 de maio de 2022].

Fabre, C. (2012) Cosmopolitan war, Oxford: Oxford University Press.

Gardiner, J. (2006) The animals’ war, London: Portrait.

George, I. & Jones, R. L. (2007) Animals at war, Tulsa: EDC.

Hediger, R. (2012) Animals and war, Leiden: Brill.

McMahan, J. (2009) Killing in war, Oxford: Oxford University Press.

Regan, T. (2004 [1983]) The case for animal rights, updated with a new preface, Berkeley: University of California Press.

Singer, P. (2002 [1979]) Ética prática, São Paulo: Martins Fontes.


Notas

1 Milburn, J. & Goozen, S. van (2020) “Counting animals in war”, Social Theory And Practice, 47, pp. 657-685.

2 Hediger, R. (2017) “Animals in war”, em Maher, J.; Pierpoint, H. & Beirne, P. (eds.) The Palgrave international handbook of animal abuse studies, London: Palgrave Macmillan, pp. 475-494.

3 Milburn, J. & Goozen, S. van (2020) “Counting animals in war”, op. cit.

4 The Editors of Encyclopaedia Britannica (2022) “Agent orange: Defoliant”, Encyclopedia Britannica, May 24 [acessado em 17 de junho de 2022]

5 Andrzejewski, J. (2013) “War: Animals in the aftermath”, em Nocella, A. J.; Salter, C. & Bentley, J. K. C. (eds.) Animals and war, Lanham: Lexington Books, pp. 74-95.

6 Gaynor, K. M.; Fiorella, K. J.; Gregory, G. H.; Kurz, D. J.; Seto, K. L.; Withey, L. S. & Brashares, J. S. (2016) “War and wildlife: Linking armed conflict to conservation”, Frontiers in Ecology and the Environment, 14, pp. 533-542.

7 Ética Animal (2016) “Uso militar de animais”, Animais usados como trabalhadores e ferramentas, Ética Animal [acessado em 29 de abril de 2022].

8 Milburn, J. & Goozen, S. van (2020 ) “Counting animals in war”, op. cit.

9 Ética Animal (2016) “Uso militar de animais”, op. cit.

10 Nowrot, K. (2015) “Animals at war: The status of ‘animal soldiers’ under international humanitarian law”, Historical Social Research, 40 (4), pp. 128-150.

11 Menache, A. (2017) “Animals in scientific research”, em Maher, J.; Pierpoint, H. & Beirne, P. (eds.) The Palgrave international handbook of animal abuse studies, op. cit., pp. 475-494.

12 Alguns exemplos desses critérios relevantes para nós são: proporcionalidade, que exige que haja um equilíbrio entre os danos causados por uma ação de guerra (ou a própria guerra) e o bem que ela procura alcançar; necessidade, que exige que as ações tomadas sejam as menos prejudiciais (mas viáveis) das disponíveis; discriminação, que exige que os visados na guerra sejam os envolvidos no conflito armado, diferenciando entre líderes políticos, combatentes e civis.

13 Milburn, J. & Goozen, S. van (2020) “Counting animals in war”, op. cit.

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