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Devemos ajudar animais selvagens vulneráveis, não matá-los

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Turistas foram ridicularizados no Parque Nacional de Yellowstone (Estados Unidos) por “antropomorfizarem” uma filhote de bisão quando a colocaram num carro porque pensaram que ela estava com frio. Entretanto, muitos animais não humanos morrem devido ao tempo frio e muitas vezes são ignorados. Já que a família da filhote a abandonou após ela ser tocada por humanos, ela continuou abordando turistas e seus carros. Visto que ela estava abordando humanos, os funcionários do parque a mataram.

Grande parte da mídia, como o The Washington Post, está culpando os turistas pela morte do bisão1. É ignorado o fato de que o bisão foi morto por funcionários. Este é o lado que muitos veículos da imprensa estão apresentando:

A morte do bisão foi o último de uma série aparentemente sem fim de incidentes que salientam a tolice de abordar, alimentar, tirar selfies com — ou, neste caso, tentar ajudar — animais selvagens. O comunicado do parque enfatizou que essas interações podem ser perigosas e ilegais, e condenou recentes vídeos virais de pessoas abordando bisões a distâncias perigosamente curtas.

Se a família do bisão não cuidava dele, por que ela não poderia ser enviada a um santuário de animais em vez de ser morta? Muitas pessoas estão indignadas por o bisão ter sido morto. Mas elas estão erradas ao culpar os turistas que tentaram ajudá-la. Em vez disso, são os funcionários que a mataram e as pessoas que criam as políticas por trás disso que deveriam ser culpadas.

Há um ponto de vista segundo o qual humanos não devem se envolver nas vidas dos animais selvagens, mas isso desconsidera o fato de que animais selvagens são indivíduos sencientes com necessidades, como nós. Ninguém reagiria dessa forma se, em vez de uma filhote de bisão, fosse um bebê humano que precisasse de ajuda. Seria apavorante matar bebês humanos indesejados ou órfãos somente porque eles não têm ninguém para cuidar deles.

Nós aceitamos quando animais são mortos porque pensamos que suas vidas não são tão valiosas quanto as de humanos. Aceitar esse tratamento para outros quando nunca o aceitaríamos para um humano é uma discriminação especista. A alegação de que animais não humanos considerados como selvagens só devem viver caso se ajustem ao seu ambiente e consigam sobreviver por conta própria, mas não se precisarmos ajuda-los a sobreviver, também é especista. Também não pensamos dessa forma quando se trata de seres humanos.

Além da atitude especista que as pessoas têm em relação aos animais órfãos, esta história mostra outro equívoco comum a respeito dos animais não humanos. Muitas pessoas e organizações ambientalistas mantêm o equívoco de que os animais vivem vidas agradáveis no mundo selvagem e que devemos deixa-los a sós. Mas isso não é assim. Ferimentos e doenças sem tratamento, inanição, sede e a incapacidade de escapar de condições meteorológicas severas são aspectos da realidade que animais selvagens são forçados a enfrentar sem alívio.

Em vez de estar com raiva dos turistas, não deveríamos estar com raiva da falta de educação que temos sobre ajudar os animais selvagens? Não deveríamos estar com raiva por os animais selvagens serem mortos em vez de serem ajudados? A verdade não é que não podemos ajudar os animais selvagens, mas que atitudes especistas muitas vezes nos impedem de fazer isso2.

Não devemos condenar as ações dos indivíduos que tentam ajudar animais. Essa história deveria ser um despertar para a falta de ajudar que damos aos animais selvagens3.


Referências:

1 Brulliard, K. (2016) “Baby bison dies after Yellowstone tourists put it in their car because it looked cold”, The Washington Post, May 16 [acessado em 27 de maio de 2016].

2 Histórias como essas não devem nos fazer esquecer muitas outras histórias reais de resgates de animais selvagens feitos por indivíduos que acabaram salvando vidas. Esta história sobre um menino punido por salvar a vida de um filhote de veado é um exemplo: Groom, N. (2015) “Teen fights to save the life of his pet deer named ‘Rudolph’ who he rescued from the bush – as authorities claim it’s a ‘threat’ to the public and must be killed”, DailyMail, December 15 [acessado em 27 de maio de 2016].

3 Sobre este tema, ver também:

Bovenkerk, B.; Stafleu, F.; Tramper, R.; Vorstenbosch, J. & Brom, F. W. A. (2003) “To act or not to act? Sheltering animals from the wild: A pluralistic account of a conflict between animal and environmental ethics”, Ethics, Place and Environment, 6, pp. 13-26.

Faria, C. & Paez, E. (2015) “Animals in need: The problem of wild animal suffering and intervention in nature”, Relations: Beyond Anthropocentrism, 3 (1), pp. 7-13 [acessado em 6 de novembro de 2015].

Dorado, D. (2015) “Ethical interventions in the wild: An annotated bibliography”, Relations: Beyond Anthropocentrism, 3 (2), pp. 219-238 [acessado em 6 de novembro de 2015].

Kirkwood, J. K. & Sainsbury, A. W. (1996) “Ethics of interventions for the welfare of free-living wild animals”, Animal Welfare, 5, 235-243.

Ng, Y.-K. (1995) “Towards welfare biology: Evolutionary economics of animal consciousness and suffering”, Biology and Philosophy, 10, pp. 255-285.

Tomasik, B. (2015) “The importance of wild animal suffering”, Relations: Beyond Anthropocentrism, 3 (2), pp. 133-152 [acessado em 20 de novembro de 2015].

Torres, M. (2015) “The case for intervention in nature on behalf of animals: A critical review of the main arguments against intervention”, Relations: Beyond Anthropocentrism, 3 (1), pp. 33-49 [acessado em 11 de dezembro de 2015].

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