Comer cachorro ou gato na ceia de natal é pior que comer peru?

23 Dec 2015
group of nureongi dogs sitting together

Cães Nureongi

Tem havido muita atenção na mídia sobre o fato de uma pequena parte da população na Suíça estar consumindo carne de cães e gatos1. A venda desses animais pela sua carne é ilegal, mas é legal comer animais domésticos se forem mortos “humanitariamente”. A carne de gato é servida tradicionalmente no Natal, enquanto a carne de cachorro é, por vezes, servida para tratar reumatismo. Uma petição iniciada pela organização de direitos animais SOS Chats, coletou assinaturas exigindo do parlamento o banimento da prática do consumo de gatos e cães.

Alguns dos moradores que usam esses animais como comida estão indignados com os protestos. “Não há nada de estranho nisso,” disse um fazendeiro em Rhine Valley ao The Local2 , uma rede europeia de notícias em língua inglesa. “Carne é carne”.

Outros países receberam atenção negativa da mídia por comerem carne de gato e cachorro no passado. O festival de consumo de cães da China enfrentou críticas, bem como o consumo de nureongi, cães coreanos criados para ser alimento. Como na Suíça, na Coreia é ilegal abater e vender carne de cachorro para fins comerciais. Contudo, não há proibição específica para abate não comercial para alimentação. Mesmo o banimento de carne de cachorro para fim comercial não é rigorosamente aplicada3.

Enquanto os suíços consomem animais “de estimação” ou animais de rua, os nureongi coreanos são criados especialmente para consumo e não são mantidos como animais “de estimação”. São considerados diferentes dos cães domésticos que os coreanos amam e cuidam (e não comem)4. Essa raça de animais não possui nome científico, mas o termo informal nureongi significa “amarelo”. Outra gíria para eles é ddong-gae ou “cães de merda”, pelo fato de comerem fezes. Eles são considerados vira-latas e não são permitidos a entrar nas casas. Em contraste, cães “de estimação” são citados usando a mais honrosa palavra de origem chinesa: gyeon.

Suíços, Chineses e Coreanos que comem esses animais, são severamente criticados por pessoas de outras culturas. Mas por que matar e consumir milhões de outros animais como vacas, porcos e galinhas é considerado aceitável? Por que inseminar artificialmente uma vaca leiteira em uma fazenda, depois matar seu bebê pela carne de vitela não causa ofensa pública? É fácil desprezar as práticas de outros países, mas tais críticas nos distraem de examinar as questões éticas que envolvem nossas próprias práticas.

Se rejeitarmos o especismo, então devemos respeitar todos os animais. Não há nenhuma razão moralmente justificável para que um gato ou cão deva ser respeitado mais do que uma galinha ou um peixe. Da mesma forma que a distinção entre o animal de estimação gyeon e o consumível nureongi é arbitrária, a distinção que a maior parte do mundo ocidental faz entre animais de pecuária e os outros é também arbitrária. Cães e gatos recebem tratamento especial em muitos lugares porque suas culturas os consideram como animais de estimação. O que muitas pessoas não pensam é sobre o fato dos animais sencientes terem a capacidade de sofrer e desfrutar, independentemente da espécie, serem prejudicados quando os criamos e matamos para alimentação. Se nos horroriza que os Coreanos criem uma classe de cães chamados de “cães de carne”, ou que os Suíços consumam carne de gato e cachorro, então também deveríamos questionar os horrores de consumir toda a carne e produtos de origem animal.


1 BBC Newsbeat (2014) “Stop eating cats and dogs say animal rights campaigners in Switzerland”, BBC Newsbeat, 26 November [acessado em 17 de dezembro de 2014].

2 The Local (2012) “Dogs and cats ‘still eaten in Switzerland’”, The Local, 27 December [acessado em 4 de dezembro de 2014].

3 Kim, E. R. (2008) “Dog meat in Korea: A social-legal challenge”, Animal Law Review, 14, pp. 201-236 [acessado em 10 de dezembro de 2014].

4 Podberscek, L. A. (2009) “Good to pet and eat: The keeping and consuming of dogs and cats in South Korea”, Journal of Social Issues, 65 (3), pp. 615-632.