Quem paga o preço da carne?

30 Jun 2021

O seguinte post é um fragmento de um texto de Oscar Horta, membro da Ética Animal, publicado em um capítulo de um livro de sua autoria (ver a referência bibliográfica no final deste post). Decidimos reproduzi-lo aqui porque é um texto que trata de um tópico importante, que é como o especismo pode nos levar a fazer estimativas erradas do verdadeiro custo que a exploração animal tem para os próprios animais:

“Quem consome bens e serviços de origem animal não o faz porque quer que os animais sofram. Claro, existem pessoas que não se importam se os animais sofrem e morrem. Mas a maioria das pessoas que usam produtos de origem animal prefere que isso não aconteça. Elas apenas acreditam que o interesse em os usar justifica que tanto sofrimento e morte aconteçam.

E isto estaria correto? Tal justificativa existiria? Para responder a essa pergunta, é necessário comparar o que o consumo de animais significa para as duas partes envolvidas. Isto é, qual é o preço para quem os consome e para os próprios animais.

Em lojas e supermercados você pode ver cartazes anunciando os preços de diferentes produtos de origem animal (a carne de diferentes animais, como vacas, galinhas, porcos ou peixes, assim como ovos, laticínios, etc.). O que se pressupõe, portanto, é que o preço desses produtos seja pago por quem os compra e os consome. No entanto, a realidade é mais complicada. Vamos analisar isso com o seguinte caso:

O custo real de um prato de frango

As galinhas criadas para o consumo passam a vida em granjas onde sofrem um verdadeiro inferno. Como se sabe, atualmente a vida desses animais pode durar cerca de 6 ou 7 semanas. Vamos considerar aqui o caso de uma galinha que viveu 45 dias.

Matando aquela galinha, talvez você consiga alimento para cinco pessoas comerem. Com esses números podemos calcular o tempo de sofrimento do frango que diz respeito a cada pessoa. Será 45 dias dividido entre as 5 pessoas. Ou seja, 9 dias. Esse é o tempo médio que leva para um frango sofrer em uma fazenda para que alguém possa saborear cada um dos cinco pratos.

Além do sofrimento padecido pelo animal, também podemos levar em conta o dano que foi causado ao matá-lo e, por meio disso, ter lhe ocasionado uma morte prematura. Tendo sido morto para ser comido, o frango deixará de viver os aproximadamente 10 anos que poderia ter continuado vivo.

Isso significa que cada uma das pessoas que comeram o prato de frango foi responsável, aproximadamente, pela perda de cerca de 2 anos de vida do frango. Suponhamos que cada pessoa tenha levado 15 minutos para comer aquele prato de frango. Isso significa que, em troca de 15 minutos saboreando um prato, esse animal teve que sofrer em uma fazenda por aproximadamente 9 dias, e foi privado de 2 anos de vida.

Podemos fazer uma análise mais detalhada

Pode demorar alguns poucos segundos para saborear um pedaço de um prato. Vamos considerar que uma porção de frango seja consumida em 24 mordidas. Se, para comermos tal alimento existe um frango que teve de sofrer 9 dias e foi privado de 2 anos de vida, quanto dano ele sofre por cada uma dessas 24 mordidas? Fazendo as contas, o resultado é o seguinte: em troca de cada breve momento de degustação de sua carne, o frango sofreu em média cerca de 9 horas na granja e ele foi privado de um mês de vida para cada uma das mordidas. Cada segundo de nossa degustação é muito caro para o animal que é comido.

Dessa forma, com esse cálculo simples, podemos saber quanto custa saborear um pedaço de carne, no caso, de frango. Esse é o preço real da carne. Esse custo é tão impressionante e desproporcional ao benefício obtido por aqueles que comem produtos de origem animal que ninguém concordaria em pagá-lo em troca do prazer assim obtido.

Ou seja, suponha que para saborear um pedaço de carne de frango tenhamos que assumir o preço que os animais pagam por isso. Ou, dito de outra forma, que para saborear um pedaço de carne de frango teríamos que sofrer nove horas e perder um mês de vida. É óbvio que ninguém concordaria em pagar esse preço. No entanto, este é o verdadeiro preço da carne, o preço do consumo de animais para alimentação. O que se paga no supermercado ou em um restaurante não é o custo real de obtenção desse produto. É apenas uma parte mínima. Não inclui o custo sofrido pelos animais. E, é claro, isso não acontece apenas no caso do preço da carne de frango, mas também no caso de outros produtos de origem animal.

Por sua vez, aos animais que não são criados em granjas industriais é infligido um sofrimento menor, embora, como se sabe, também sofram consideravelmente e são igualmente privados de suas vidas. Assim, com um cálculo semelhante ao feito aqui, podemos considerar o preço que o consumo de outros produtos de origem animal tem para outros animais. Os números podem variar no caso de animais diferentes, é claro, dependendo de diferentes fatores, incluindo se são animais de maior ou menor tamanho. Alguns animais são muito pequenos (por exemplo, peixes como sardinhas, arenques ou anchovas, bem como invertebrados como lulas, camarões ou caranguejos). Vários deles podem ser consumidos na mesma refeição. Então, nesses casos, o preço de uma refeição não é pago por apenas um animal, mas por vários deles. Em qualquer caso, também quando se abate animais de grande porte, seremos confrontados com preços que ninguém pagaria em troca dos benefícios obtidos.

Além disso, como já vimos, hoje em dia os animais costumam ser alimentados com outros animais. Isso significa que, ao consumir produtos de origem animal, não estamos apenas comendo o resultado do sofrimento e da morte dos animais dos quais esses produtos foram obtidos. Também estamos consumindo indiretamente todos os outros animais usados ​​para alimentá-los. Se comermos um peixe que foi alimentado com outros cinquenta peixes, também estaremos pagando para que esses cinquenta peixes morram.

Portanto, a maior parte do verdadeiro preço da carne não é o que pagamos. Consiste nos terríveis danos que são causados aos animais. São eles que realmente pagam a conta quando compramos sua carne.

Além disso, isso não é tudo, porque o benefício que se obtém em troca do sofrimento e da morte causados ​​aos animais é muito menor do que se possa imaginar. Alguém pode pensar que este é o caso por motivos de saúde, uma vez que o consumo de produtos de origem animal pode ser prejudicial. Mas, na verdade, há outro motivo. É o seguinte: o benefício que advém de saborear um pedaço de carne ou outro produto de origem animal não é realmente o desfrute desse sabor. Consiste na diferença entre o prazer obtido ao comer um pedaço de carne e o que se teria ao saborear um prato sem produtos de origem animal1. Consideremos que, se não comêssemos produtos de origem animal, poderíamos comer outros produtos de origem vegetal que também seriam saborosos.

Da mesma forma, o benefício obtido com o uso de uma vestimenta de couro seria a diferença entre o benefício obtido com a mesma e o benefício que seria obtido com a utilização de outra confeccionada sem materiais de origem animal. A alternativa a não usar animais não é ficar sem roupa e morrer de fome. É simplesmente usar outros produtos que não requerem exploração animal.”

Horta, O. (2019) Na defensa dos animais. Rianxo: Axóuxere, p. 138-142.

 


Notas

1 Ver McMahan, J. (2008) “Eating animals the nice way”, Daedalus, 137, pp. 66-76 [acessado em 28 de junho de 2021].