Neste texto abordaremos a questão da senciência digital. Veremos: (1) do que se trata; (2) o debate sobre se ela pode vir a se concretizar ou não, e (3) porque essa é uma questão importante, sobretudo para quem se importa com os animais.
A defesa dos animais não humanos é fundada em sua senciência. É ela que os torna capazes de sofrer e desfrutar e, portanto, de serem beneficiados ou prejudicados dependendo do que lhes ocorra. Por exemplo, se sofrem, são prejudicados pela presença de experiências negativas; se morrem, são prejudicados pela ausência de experiências positivas. É por esse motivo que precisam de consideração moral.1 Não é porque pertencem ao reino animal ou porque são seres vivos. É porque são sencientes, pois é isso que torna possível que sejam beneficiados ou prejudicados.
Até o momento, pelo que parece, todo ser senciente também é um membro do reino animal. É possível que isso mude no futuro? Por exemplo, pode ser que no futuro surjam seres sencientes em meios digitais? A seguir, veremos por que vários especialistas em filosofia da mente acreditam nessa possibilidade.2
Para respondermos à questão “é possível que surjam seres sencientes digitais?” é necessário antes definirmos o que queremos dizer com a palavra senciência. Entretanto, essa palavra tem sido utilizada em pelo menos quatro sentidos:
Da mesma maneira, o termo senciência digital poderia ser utilizado em referência a qualquer um desses sentidos. Neste texto, utilizaremos a palavra em um sentido amplo, assumindo que, se qualquer uma das condições acima for cumprida, já há ali um ser senciente.
Uma das visões mais amplamente aceitas atualmente sobre senciência mantém que aquilo que torna possível a sua manifestação é o fato de a matéria física estar organizada de determinada maneira.7 Segundo essa visão, é o trabalho desempenhado pelo cérebro ou por gânglios, de processamento das informações que chegam ao organismo por meio dos órgãos dos sentidos e percorrem o sistema nervoso, aquilo que cria as condições para que essas informações sejam decodificadas e aconteçam as experiências.
De acordo com essa visão, apesar de todo ser senciente que conhecemos até o momento ser também um animal, nem todos os animais são sencientes. Por exemplo, não seriam sencientes aqueles animais que não possuem sistema nervoso (como os poríferos), nem os que possuem um sistema nervoso sem nenhum órgão centralizador que processe as informações (como os cnidários e os equinodermos). Segundo essa visão, para haver senciência, é necessário um órgão que processe e unifique as informações, como um cérebro ou gânglios.
Isso levanta a seguinte questão: será que, para que as condições para que a senciência se manifeste sejam fornecidas, é necessário que o aparato físico seja biológico, ou será que tal manifestação aconteceria em qualquer material físico que estivesse organizado de forma a exercer as mesmas funções de um sistema nervoso com um cérebro?
Em filosofia da mente, dá-se o nome de funcionalismo à corrente que defende que aquilo que importa para a senciência se manifestar é a matéria física estar organizada de modo a desempenhar certas funções, independentemente de qual é o material que compõe essa matéria.8
O funcionalismo é uma das principais visões que fundamenta a ideia de que a senciência digital é possível. Segundo o funcionalismo, quando for possível reproduzir em meios digitais as funções que em um cérebro tornam possível a manifestação da senciência, haverá seres sencientes em meios digitais.
O funcionalismo não é a única corrente segundo a qual a senciência digital é possível. Por exemplo, o pampsiquismo é uma corrente que defende que toda a matéria (desde partículas subatômicas) possui, além de um aspecto físico, também um aspecto mental.9 Assim, o pampsiquismo também poderia ser usado para fundamentar a existência de senciência digital. Entretanto, para efeito de simplificação, nesse texto nos centraremos no funcionalismo.
Atualmente não se sabe exatamente quais são as funções necessárias e suficientes que um sistema precisa desempenhar para que a senciência se manifeste.10 Portanto, se o funcionalismo estiver correto, é possível que em determinado momento certo sistema digital já seja senciente, e nós não percebamos.
Há um experimento de pensamento que sugere que talvez no futuro seja possível testar se a manifestação da senciência depende do material do qual é feita a matéria física, ou se depende apenas da função desempenhada. O experimento é o seguinte:
Imagine que no futuro se torne possível substituirmos gradualmente todas as células biológicas do nosso corpo, incluindo os neurônios, por células não orgânicas. Se, após a troca gradual ser completada, a nossa senciência não desaparecer, isso sugeriria que a manifestação da senciência não depende do material.11
É claro, cada um de nós poderia comprovar isso apenas no seu próprio caso (uma vez que não conseguimos comprovar diretamente a senciência dos outros), mas esse único caso já demonstraria a possibilidade da senciência digital. Além disso, também não conseguimos experimentar diretamente a senciência dos outros seres que possuem cérebros orgânicos, mas inferimos, cada um a partir do seu próprio caso, que aquelas condições que tornam possível a senciência em nós mesmos também a tornam possível em qualquer outro organismo. Portanto, não há razão para pensar diferente no caso de cérebros não orgânicos.
Uma possível objeção nesse ponto seria dizer que, mesmo se em um caso assim a senciência de cada um de nós não desaparecesse, ainda não poderíamos concluir que necessariamente surgiriam seres sencientes em meios digitais. Isso porque, no nosso caso, começamos como seres orgânicos, e só depois a substituição teve lugar.12
Poder-se-ia pensar que essa crítica seria endossada por quem defende que a consciência não se reduz à matéria física. Mas, na verdade ocorre o oposto. Se alguém afirma que a consciência não é algo físico, então não precisa necessariamente dizer que, para haver consciência, o sistema precisa ser orgânico. Além disso, quem defende que a consciência se reduz à matéria física também não precisa endossar essa crítica, pois nada nessa visão implica que a matéria física em questão precise ser orgânica.
Assim, o funcionalismo não é necessariamente uma teoria sobre o que é a consciência. É mais uma teoria sobre como a matéria precisa estar organizada para que a consciência se manifeste. Isso significa que o funcionalismo é compatível, tanto com o fisicalismo13 (a ideia de que a consciência é algo físico) quanto com visões não fisicalistas14 (pois estas poderiam defender que a consciência, se for uma substância ou propriedade não física, se manifesta em um sistema físico toda vez que ele estiver organizado de determinada maneira, independentemente do material de que é composto).
Voltando à crítica que defende que a senciência digital seria possível apenas em sistemas orgânicos que fossem gradualmente transformados em sistemas não orgânicos, uma possível resposta a ela é defender que o ônus da prova é de seus proponentes, de explicar por que haveria a necessidade de o sistema em questão começar como sistema orgânico para que a senciência digital seja possível, uma vez que admitem que poderia haver senciência em sistemas antes orgânicos que se tornaram gradualmente totalmente não orgânicos.
Além disso, mesmo que o experimento de pensamento em questão não comprove que necessariamente a senciência surgiria em meios digitais, ele sugere que há essa possibilidade. E, isso parece suficiente para que devamos dar o benefício da dúvida a tais sistemas.
Como deve estar claro agora, defensores dos animais deveriam se importar com a possibilidade do surgimento de senciência digital simplesmente porque tais seres, caso venham a existir, seriam também passíveis de ser prejudicados ou beneficiados com nossas escolhas.15 Lembremos que os animais precisam de consideração não porque são seres vivos ou porque são animais, e sim porque são sencientes, uma vez que é isso que os torna passíveis de ser prejudicados ou beneficiados. Por isso, temos exatamente as mesmas razões para nos preocuparmos com qualquer outro tipo de ser senciente, caso existam ou venham a existir.
Considere a seguinte analogia. Dar peso diferenciado ao bem de um ser senciente de acordo com a espécie a qual pertence é uma forma de discriminação análoga ao racismo: o especismo. Analogamente, dar peso diferenciado ao bem de um ser senciente de acordo com o substrato que compõe o seu corpo é uma forma de discriminação análoga ao especismo: o substratismo. Assim como o antropocentrismo é uma forma de especismo contra quem não é humano, o carbonismo é uma forma de substratismo contra quem não é orgânico.16
Sendo assim, a razão central pela qual defensores dos animais (e todo o restante das pessoas) devem se preocupar com a possibilidade de senciência digital é simplesmente que tais seres seriam sencientes e, portanto, passíveis de ser prejudicados e beneficiados. Entretanto, há ainda outras razões adicionais:
Ao mesmo tempo, nossas intuições podem falhar na direção oposta. Alguns sistemas de IA atuais são projetados para conversar fluentemente e expressar emoções, e muitas pessoas já lhes atribuem experiências. Isso não significa que esses sistemas tenham, de fato, experiências. Isso significa que nossas reações não são um guia confiável em nenhum dos casos. Podemos sentir grande preocupação por sistemas incapazes de sofrer, ao mesmo tempo que ignoramos seres sencientes que não têm voz nem rosto — como aqueles em uma simulação executada em segundo plano. Alguns pesquisadores propuseram que os sistemas de IA deveriam ser projetados de modo que as reações emocionais que provocam correspondam ao seu real status moral. Já conhecemos esse problema pelo caso dos animais: muitas pessoas se importam muito mais com cães e gatos do que com peixes ou insetos, embora o que importe seja a senciência, e não o grau de familiaridade ou expressividade da aparência de um ser.
Essas razões adicionais reforçam a importância da questão sobre a possibilidade de senciência digital. As pesquisas sobre consciência e bem-estar em IA têm crescido rapidamente nos últimos anos, mas o tema ainda recebe menos atenção em termos de políticas públicas do que praticamente qualquer outro risco associado à IA. Além disso, alguns legisladores estão caminhando na direção oposta, propondo a proibição de qualquer forma de personalidade jurídica para a IA. Defensores da causa animal têm uma perspectiva importante a trazer para esse debate, e é urgente que participem dele. Há também sinais de que a legislação pode caminhar para a exclusão. Vários estados dos EUA apresentaram projetos de lei que proibiriam qualquer forma de personalidade jurídica para sistemas de IA, e uma ampla coalizão tem defendido a rejeição de qualquer personalidade jurídica para a IA.19 Medidas como essas poderiam fechar as portas para a proteção antes mesmo que a questão da senciência digital fosse seriamente analisada.
Pesquisadores que trabalham com a possibilidade de mentes digitais voltaram-se para a história de como tratamos os animais em busca de lições sobre como a sociedade poderá reagir à possibilidade de senciência digital.20
Suponhamos que nada do que foi dito acima convenceu você de que seres sencientes digitais, caso existam ou vierem a existir, deveriam importar moralmente. Considere então este último exemplo.
Vimos que uma das possíveis finalidades pelas quais alguém poderia querer criar seres sencientes digitais seria para fazer uma simulação digital de um universo e ver como guerras ou desastres naturais causam sofrimento em massa. Imagine agora que há alguém que já fez isso: é o universo no qual vivemos.21 Isto é, imagine que você e eu somos seres sencientes digitais, apesar de pensarmos equivocadamente que somos orgânicos.
Imagine também que há seres sencientes orgânicos fora do nosso universo, observando nosso sofrimento, e que poderiam muito bem parar com ele. Entretanto, essas pessoas pensam: “e daí que esses seres sofrem? Eles nem são orgânicos, como nós”.
Não estariam completamente erradas essas pessoas por ignorarem o nosso sofrimento? Não estariam essas pessoas pensando como pensam os racistas e os especistas? Se sim, então devemos dar igual consideração aos seres sencientes digitais.
1 Dar consideração moral a alguém é tentar evitar prejudicá-lo e buscar beneficiá-lo. Sobre o conceito de consideração moral, ver Jaworska, A. & Tannenbaum, J. (2021 [2013]) “The grounds of moral status”, in Zalta, E. N. & Nodelman, U. (eds.) The Stanford encyclopedia of philosophy, Stanford: The Metaphysics Research Lab, https://plato.stanford.edu/archives/spr2023/entries/grounds-moral-status/; Gruen, L. & Monsó, S. (2024 [2003]) “The moral status of animals”, in Zalta, E. N. & Nodelman, U. (eds.) The Stanford encyclopedia of philosophy, Stanford: The Metaphysics Research Lab, https://plato. stanford.edu/archives/fall2024/entries/moral-animal/
2 Ver, por exemplo, Bostrom, N. (2014) Superintelligence: Paths, dangers, strategies, Oxford: Oxford University Press, pp. 22-30; Goff, P. (2019) Galileo’s error: Foundations for a new science of consciousness, London: Rider, pp. 112-120; Chalmers, D. J. (2022) Realty+: Virtual worlds and the problems of philosophy, New York: W. W. Norton & Company, pp. 315-330.
3 Ver, por exemplo, Nagel, T. (1974) “What is it like to be a bat?”, The Philosophical Review, 83 (4), pp. 435-450.
4 Ver, por exemplo, Clarke, M. & Ng, Y.-K. (2006) “Population dynamics and animal welfare: Issues raised by the culling of kangaroos in Puckapunyal”, Social Choice and Welfare, 27, p. 409.
5 Ver, por exemplo, Bovenkerk, B.; Stafleu, F.; Tramper, R.; Vorstenbosch, J. & Brom, F. W. A. (2003) “To act or not to act? Sheltering animals from the wild: A pluralistic account of a conflict between animal and environmental ethics”, Ethics, Place and Environment, 6, p. 15.
6 Ver, por exemplo, Brown, J. (2006) “Comparative endocrinology of domestic and nondomestic felids”, Theriogenology, 66, p. 26.
7 Kim, J. (2005) Physicalism, or something near enough, Princeton: Princeton University Press, pp. 7-15.
8 Putnam, H. (1975) “Psychological predicates”, in Mind, Language and Reality: Philosophical Papers, Volume 2, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 429-440.
9 Goff, P. (2017) Consciousness and Fundamental Reality, Oxford: Oxford University Press, pp. 10-22.
10 Seth, A. K. & Bayne, T. (2022) “Theories of consciousness”, Nature Reviews Neuroscience, 23, pp. 439-452. Para um exame das principais teorias atuais sobre quais processamentos precisam ocorrer em um sistema para a consciência se manifestar, ver Butlin, P. et al. (2023) “Consciousness in Artificial Intelligence: Insights from the Science of Consciousness”, arXiv, 2308.08708 [acessado em 05 de outubro de 2026].
11 Sobre o experimento, ver Pylyshyn, Z. W. (1980) “Computation and cognition: Issues in the foundations of cognitive science”, Behavioral and Brain Sciences, 3, pp. 111-132; Chalmers, D. J. (1996) The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory, Oxford: Oxford University Press, pp. 247-274.
12 Para essa objeção, ver Searle, J. R. (1992) The Rediscovery of the Mind, Cambridge, MA: MIT Press, pp. 65-71; Schneider, S. (2019) Artificial You: AI and the Future of Your Mind, Princeton: Princeton University Press, pp. 45-52. Para outras objeções à possibilidade de consciência em sistemas não orgânicos, ver Seth, A. (2023) “The Mythology of Conscious AI”, Noema Magazine, 30 de novembro [acessado em 06 de outubro de 2026].
13 Entre as visões fisicalistas, podemos citar o Type Physicalism, defendido por Hill, C. S. (1991) Sensations: A Defense of Type Materialism, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 55-80; o Token Physicalism, defendido por Davidson, D. (2001) Essays on Actions and Events, 2nd ed., Oxford: Oxford University Press, pp. 207-225, o Fisicalismo Funcionalista, defendido por Lewis, D. (1994) “Reduction of Mind”, in Guttenplan, S. (ed.) A Companion to the Philosophy of Mind, Oxford: Blackwell, pp. 412-431; e o Materialismo Eliminativista, defendido por Churchland, P. M. (1981) “Eliminative Materialism and the Propositional Attitudes”, The Journal of Philosophy, 78, pp. 67-90.
14 Na filosofia da mente contemporânea, entre as visões não fisicalistas podemos citar o dualismo de substâncias, defendido por Swinburne, R. (2013) Mind, Brain, and Free Will, Oxford: Oxford University Press, pp. 142-165; o dualismo de propriedades, defendido por Chalmers, D. J. (1996) The Conscious Mind: In Search of a Fundamental Theory, Oxford: Oxford University Press, pp. 123-129; o idealismo monista, defendido por Kastrup, B. (2019) The Idea of the World: A multi-disciplinary argument for the mental nature of reality, Ridgefield: John Hunt Publishing/Iff Books, pp. 33-48; o pampsiquismo, defendido por Goff, P. (2017) Consciousness and Fundamental Reality, Oxford: Oxford University Press, pp. 165-182; e a teoria do aspecto dual, defendida por Atmanspacher, H. (2012) “Dual-aspect monism according to Pauli and Jung”, Journal of Consciousness Studies, 19, pp. 96-120.
15 Sobre isso, ver Tomasik, B. (2015) “Why digital sentience is relevant to animal activists”, Animal Charity Evaluators, 3 February [acessado em 17 de setembro de 2026].
16 Sobre substratismo e carbonismo, ver: Bostrom, N. & Yudkowsky, E. (2014) “The ethics of artificial intelligence”, in Frankish, K. & Ramsey, W. M. (eds.) The Cambridge Handbook of Artificial Intelligence, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 316-334; Schwitzgebel, E. & Garza, M. (2015) “A defense of the rights of artificial intelligences”, Midwest Studies in Philosophy, 39, pp. 98-119; Schneider, S. (2019) Artificial You: AI and the Future of Your Mind, Princeton: Princeton University Press, pp. 45-62; Sentience Institute (2021) “Psychological perspectives relevant to artificial sentience”, Sentience Institute, 8 August [acessado em 17 de setembro de 2026].
17 Ladak, A. (2023) “Artificial Intelligence, Morality, and Sentience Survey 2023”, Sentience Institute, https://www.sentienceinstitute.org/aims-survey-2023 [acessado em 06 de outubro de 2026].
18 Sobre isso, ver Baumann, T. (2022) Avoiding the worst: How to prevent a moral catastrophe, London: Center for Reducing Suffering, p. 11-16, 19, 50, 52, 58-61, 83-4. [acessado em 17 de setembro de 2026].
19 Alexander, H. & Caviola, L. (2026) “It’s Too Early to Ban AI Personhood”, AI Frontiers, https://ai-frontiers.org/articles/its-too-early-to-ban-ai-personhood [acessado em 06 de outubro de 2026].
20 Caviola, L.; Sebo, J. & Birch, J. (2025) “What will society think about AI consciousness? Lessons from the animal case”, Trends in Cognitive Sciences, 29 (8), pp. 681-683, https://doi.org/10.1016/j.tics.2025.06.002 [accessed on 06 October 2026].
21 Sobre essa possibilidade, ver Bostrom, N. (2003) “Are you living in a computer simulation?”, The Philosophical Quarterly, 53 (211), pp. 243-255.