Close up of insect perched on tip of thin grass-like plant

Utilitarismo

O utilitarismo é uma teoria ética que defende que devemos agir de forma a trazer tanta felicidade quanto possível ao mundo. Essa teoria defende as seguintes coisas:

(1) O sofrimento consiste, ou de experiências negativas (para o utilitarismo hedonista), ou de preferências frustradas (para o utilitarismo preferencial). A felicidade consiste, ou de experiências positivas (para o utilitarismo hedonista), ou de preferências satisfeitas (para o utilitarismo preferencial).

(2) O que é bom para os indivíduos é que a quantia de felicidade menos o sofrimento seja aumentada. O que é ruim para os indivíduos é o oposto, isto é, que a quantia de sofrimento menos a felicidade seja aumentada.

(3) O que é melhor no geral é que a soma agregada da felicidade menos o sofrimento que os diferentes indivíduos têm seja maximizada. O que é pior no geral é que a soma agregada do sofrimento menos a felicidade que os diferentes indivíduos têm seja maximizada.

(4) Devemos agir de maneiras que maximizem o que é melhor no geral e que minimizem o que é pior no geral.

Uma forma particular de utilitarismo não foca a soma total do bem-estar positivo e do sofrimento, mas a minimização da soma total do sofrimento. Esse tipo de utilitarismo é chamado de utilitarismo negativo. Outra perspectiva defende que devemos aumentar não a soma total de felicidade (o que poderia levar a uma entidade desfrutando grande alegria enquanto todos os outros sofrem), mas a felicidade média desfrutada por todos os indivíduos sencientes. Essa teoria é conhecida como “utilitarismo médio”.

O utilitarismo tradicional, no entanto, defende que deve haver tanta felicidade quanto possível, a qual é calculada considerando toda felicidade positiva que existe e subtraindo-se desse total todo sofrimento que existe.

De acordo com o utilitarismo, o bem-estar de cada indivíduo importa. Se, em nossas decisões morais, falharmos em levar em conta os interesses de alguém que tem experiências positivas e negativas, estamos então a falhar em considerar a soma total de felicidade menos o sofrimento. Isso significa que o especismo, que é a discriminação contra aqueles que não pertencem a uma certa espécie, é injustificável, de acordo com essa visão. A discriminação contra animais não humanos sencientes, que possuem experiências positivas e negativas ou preferências, é incompatível com uma teoria tal como o utilitarismo. Essa teoria precisa levar em conta cada pedacinho de sofrimento e cada pedacinho de felicidade, o que significa levar em conta as experiências dos animais não humanos, bem como as dos humanos. Por essa razão, os primeiros teóricos utilitaristas, tais como Jeremy Bentham,1 John Stuart Mill,2 e Henry Sidgwick,3 defenderam a consideração moral dos animais não humanos. Eles afirmaram que os interesses dos animais não humanos deveriam ser respeitados tanto quanto os interesses dos humanos. Entretanto, eles falharam em perceber as consequências práticas que se seguem disso, tais como a rejeição da exploração animal e a preocupação com o sofrimento dos animais selvagens. Nos últimos tempos, filósofos como Peter Singer4 e Gaverick Matheny5 têm examinado o que se segue da inclusão dos interesses dos animais não humanos implicada pelo utilitarismo.

Para o utilitarismo, o uso de animais não humanos pode ser aceitável apenas se a felicidade que sua exploração causa seja maior do que o dano que causa. Mas, é muito difícil pensar em alguma maneira na qual isso possa ser o caso. Os animais não humanos são, abruptamente e dolorosamente, privados de suas vidas depois de terem sidos privados da maioria das experiências positivas que poderiam ter tido, depois de terem sofrido terrivelmente.

Devido ao fato de ser necessário muito sofrimento para produzir prazeres momentâneos tais como degustar produtos de origem animal, o uso de animais não aumenta a soma de felicidade no mundo; na verdade a diminui, e muitíssimo. Logo, tal exploração não pode ser considerada moralmente legítima de acordo com o utilitarismo.

Além disso, o utilitarismo não pode simplesmente aceitar que não devemos fazer nada a respeito dos danos sofridos pelos outros, mesmo quando não somos quem causou esses danos. O utilitarismo defende que devemos nos preocupar com a felicidade de todos aqueles que são capazes de ser felizes. Se há algo que esteja diminuindo a felicidade dos animais, então devemos tentar trabalhar contra isso, seja lá o que for. Assim, dadas as muitas formas terríveis pelas quais os animais selvagens são prejudicados na natureza, sua condição deve ser considerada muito importante pelos utilitaristas, assim como por aqueles que seguem certas abordagens éticas diferentes.


Leituras adicionais

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Notas

1 Bentham, J. (1996 [1781]) Introduction to the principles of moral and legislation, Oxford: Clarendon Press, p. 282n.

2 Mill, J. S. (1969) Whewell on moral philosophy, in Collected works, vol. X, London: Routledge & Kegan Paul, pp. 165-201.

3 Sidgwick, H. (1907 [1874]) The methods of ethics, 7th ed., London: Macmillan, p. 414.

4 Singer, P. (2002 [1979]) Ética prática, São Paulo: Martins Fontes.

5 Matheny, G. (2006) “Utilitarianism and animals”, em Singer, P. (ed.) In defense of animals: The second wave, Malden: Blackwell, pp. 13-25; (2002) “Expected utility, contributory causation, and vegetarianism”, Journal of Applied Philosophy, 19, pp. 293-297.

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