O que acontece com os animais selvagens durante furacões?

26 Nov 2015

 

Muitas pessoas se preocupam com o destino dos seres humanos durante desastres naturais como furacões. Existem vários programas de ajuda humanitária em desastres que dão auxílio às pessoas em tempos de necessidade. Por exemplo, A Cruz Vermelha fornece recursos como abrigos noturnos, kits de itens para emergências, serviços de saúde física e mental e refeições. Também possui Veículos de Resposta a Emergências (ERV) que circulam pelas áreas afetadas para fornecer alimento, água e outros tipos de apoio1. Existem órgãos governamentais nos Estados Unidos, como a Federal Emergency Management Agency (FEMA, Agência Federal de Gestão de Emergências), que dão auxílio a humanos, e muitas organizações locais menores, governamentais e privadas, que ajudam as pessoas a se prepararem e se recuperaram de desastres naturaiss2.

 

Mas o que acontece aos animais não humanos? Na maior parte do tempo, eles são deixados para trás. Tanto as organizações governamentais quanto as privadas, inclusive a Cruz Vermelha, geralmente se recusam a ajudar animais de estimação e forçam as pessoas a deixa-los para trás quando elas são resgatadas. Em alguns países como os Estados Unidos, a Cruz Vermelha fornece uma lista dos abrigos para animais locais, mas os abrigos para animais geralmente estão lotados até mesmo em tempos normais. Em muitos lugares existem grupos privados que ajudam os animais afetados por inundações com cuidado médico e socorro, e dão dinheiro para alimentação e ajuda veterinária3, mas eles podem esgotar rapidamente sua capacidade, e não são capazes de ajudar em todos os casos, particularmente em casos em que é necessário resgate urgente e as pessoas são forçadas a escolher entre serem resgatadas de uma situação terrível e ficar com seus animais de estimação.

No Brasil, ocorre algo parecido durante desastres. No início de novembro, após o rompimento de duas barragens e o vazamento de rejeitos da mineração em Minas Gerais, muitos animais foram abandonados e vários ficaram presos na lama. Houve diversos resgates posteriormente, em especial de animais domesticados e de animais como peixes e tartarugas ameaçados. Isso é algo positivo para os animais salvos, embora em muitos casos a preocupação seja com interesses humanos ou ambientalistas em vez de com os indivíduos prejudicados. Porém, um número enorme de animais selvagens morre durante episódios como esse e muitas vezes isso recebe pouca atenção.

 

 

Nos Estados Unidos, houve mudanças recentes para melhor nas leis federais e estaduais. Após o furacão Katrina em 2005, houve tantas pessoas que recusaram o resgate porque não queriam deixar seus cães e gatos para trás, que a lei federal foi alterada para dar provisões à FEMA para resgatar e cuidar de animais que vivem em lares humanos. Alguns estados agora têm leis semelhantes4. Isso ajuda os animais, é claro, mas a razão da mudança foi minimizar o perigo para vidas humanas. Além de se beneficiar das provisões da FEMA para os animais de estimação, a cidade de Nova York teve um progresso recente na ajuda aos animais através da combinação de leis locais e esforços de coordenação entre governo, organizações privadas defensoras dos animais e cidadãos. Quando o furacão Sandy atingiu a costa oeste dos Estados Unidos em 2012, a cidade de Nova York permitiu a entrada animais como cães e gatos em todos os abrigos da cidade e no transporte público5. Algumas organizações conseguiram oferecer abrigo de emergência para animais desalojados, graças a grandes doações de cidadãos preocupados com os animais de estimação após o furacão. Além de dar abrigo, a Animal League forneceu alimento, água e tratamento médico, e equipes de busca e resgate de animais foram criadas6.

Infelizmente, animais selvagens costumam ser esquecidos. É fácil esquecê-los, porque eles não podem pedir ajuda. Tipicamente, seres humanos não se preocupam com animais selvagens da forma que se preocupam com animais de estimação como cães e gatos. Animais selvagens não vivem com humanos nem interagem com eles regularmente. Mas mesmo que tenhamos relações com eles, o que é importante lembrar é que eles podem estar sofrendo e precisando de ajuda.

Quando desastres acontecem, os animais selvagens enfrentam muitos desafios. Destruição dos lares, acidentes, ferimentos, separação das famílias, desalojo, problemas de saúde devido a mudanças no habitat e morte são desafios que eles enfrentam, e geralmente sem qualquer ajuda. Alguns exemplos são:

 

 

Animais em florestas

rabbit killed in hurricaneAnimais que vivem em árvores podem sobreviver à tempestade com mais frequência que animais pequenos que habitam o subsolo, como ratos, camundongos e coelhos, que se afogam quando seus lares são inundados. Animais pequenos podem ser os mais vulneráveis a serem carregados pelo vento e bater contra o solo ou contra grandes objetos como postes. Destroços caindo, como galhos de árvores, podem esmaga-los, como no caso deste coelho atingido no furacão Sandy. Animais em florestas podem se agarrar em galhos de arvores ou se alimentarem em tocas construídas neles. Entretanto, animais jovens podem ser arrancados de seus ninhos por ventos muito fortes7. Centros de resgate de animais recebem muitos filhotes de esquilo após furacões por causa de ninhos deslocados.

As fontes de alimento para os animais selvagens também são danificadas. Veados podem encontrar alimento que cai no chão, como folhagem, frutos e sementes que são dispersos pelo vento. Entretanto, o suprimento de comida criado pela tempestade pode apodrecer, o que o torna impalatável. Os ventos podem derrubar árvores, arrancar troncos e galhos e remover frutos. A perda significativa de árvores impossibilita os lares de aves e outros animais que nidificam em árvores ou dependem delas para proteção de predadores8.

Aves

Aves aquáticas são profundamente atingidas durante grandes tempestades. Aves que vivem em bosques se saem melhor ao se agarrarem em galhos quando o vento bate. Pica-paus podem encontrar abrigo nos buracos onde nidificam e aves costeiras podem se deslocar para o interior. Aves marinhas e aquáticas enfrentam a exposição mais aberta. As aves são afetadas por serem desalojadas pelo vento. Durante furacões, o olho da tempestade pode prender as aves dentro de uma enorme parede de vento até que a tempestade se enfraqueça, momento em que já podem ter sido carregados para muito longe de casa.

 

Outros animais marinhos e aquáticos

Furacões podem causar ondas enormes e agitação violenta na superfície da água. Muitos peixes podem ser mortos dessa forma. Muitos animais como golfinhos, peixes-boi, peixes e pequenos invertebrados marinhos podem ser arrastados para a praia. Os ninhos de tartarugas marinhas podem ser varridos da praia para longe do mar. Peixes podem ser eletrocutados por fios elétricos que caem na água9. Os danos em dunas e praias podem destruir as casas de animais, como certos roedores. Também pode haver destruição de fontes de alimento10.

 

Salinidade e inundações

Intrusões salinas causadas por furacões podem levar a água do oceano para habitats de água doce. A alta salinidade em ambientes com água doce pode matar animais como trutas, que são dependentes de água fresca para sobrevivência. O inverso também pode causar danos que prejudicam os animais. Chuvas fortes podem levar fontes de água fresca como rios a inundarem habitats de água salobra como lagoas. Isso pode matar animais que precisam de alta salinidade.

 

Por que devemos nos preocupar?

Devemos nos preocupar com os animais sencientes porque eles podem sofrer. Se você estivesse no lugar deles, não gostaria de ser ajudado? A maioria das pessoas concordaria que a coisa certa a se fazer é ajudar humanos após desastres naturais. Um número menor, mas possivelmente ainda assim a maioria, incluiria os animais que vivem com humanos. Um número ainda menor ampliaria isso para incluir animais selvagens também. Mas os animais selvagens não sofrem menos que animais domesticados ou humanos. Se rejeitarmos o especismo, todos os animais devem também receber assistência quando formos capazes de dá-la.

 

O que pode ser feito pelos animais selvagens?

Algumas organizações têm programas conservacionistas que visam proteger animais selvagens em seus habitats naturais, mas estão preocupadas principalmente em preservar certas áreas naturais e veem os animais que vivem nessas áreas como partes da natureza. O foco deveria estar nos interesses dos seres sencientes que são prejudicados pelas tempestades. Existem algumas organizações de resgate a animais que também ajudam animais selvagens, como a Animal League. Durante o furacão Ike em 2008, o programa Houston SPCA Wildlife Rehab & Education acolheu animais como filhotes de esquilo que foram jogados dos ninhoss11. Em geral, entretanto, a maioria das organizações põe foco na ajuda a animais que vivem com humanos como cães e gatos.

 

A importância de divulgar a ideia

Atualmente não temos os recursos para ajudar animais não humanos em grande escala sempre que eles precisam de ajuda. Mas há muitas coisas que podemos fazer agora e que não estão sendo feitas na maioria dos lugares devido à falta de consciência ou à falta de vontade. Já sabemos que muitas coisas são viáveis, como os esforços em Nova York após o furacão Sandy e os programas que ajudam a resgatar animais selvagens. Você pode ajudar divulgando as várias formas pelas quais os animais não humanos precisam da nossa ajuda e os esforços bem-sucedidos que poderiam ser ampliados e adotados em outros lugares.


1 American Red Cross (2015) “Disaster relief”, redcross.org [acessado em 28 de outubro de 2015].

2 U. S. Department of Homeland Security (2015) “The disaster process & disaster aid programs”, fema.gov [acessado em 28 de outubro de 2015].

3 World Animal Protection (2015) “Helping animals and their owners affected by Hurricane Patricia in Mexico”, worldanimalprotection.org [acessado em 3 de novembro de 2015].

4 The American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (2015) “What is the pets act?”, ASPCA Professional [acessado em 3 de novembro de 2015].

5 Udell, C. (2012) “Hurricane Sandy and New York City’s pets”, Care2.com, 1 November [acessado em 4 de novembro de 2015].

6 North Shore Animal League America (2015) “Hurricane Sandy: Animal League America provides relief”, animalleague.org [acessado em 2 de novembro de 2015]. The Humane Society of the United States (2012) “Pet search and rescue after Hurricane Sandy”, humanesociety.org, November 2 [acessado em 2 de novembro de 2015].

7 Bryce, E. (2012) “Where do the wild animals go?”, New York Times, November 7 [acessado em 2 de novembro de 2015].

8 Coyle, K. (2011) “7 things to know about how hurricanes affect wildlife”, blog.nwf.org, 8/27/2011 [acessado em 3 de novembro de 2015].

9 Zielinski, S. (2015) “What happens to animals in a hurricane?”, ScienceNews, October 2 [acessado em 27 de outubro de 2015].

10 National Wildlife Federation (2015) “Hurricanes and wildlife”, nwf.org [acessado em 27 de outubro de 2015].

11 Houston Society for the Prevention of Cruelty to Animals (2008) “Updates from animal rescue central”, houstonspca.org [acessado em 29 de outubro de 2015].